sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Para o novo ano que se aproxima

Estamos perplexos, caminhamos sobre dúvidas e nos deitamos ásperos. O tempo se comprime, vivemos como se repetíssemos o dia anterior e o antepassado, falta-nos o ar e decidimos não mais caminhar ao léu. Não mais sonhamos com viagens, falta-nos dinheiro, falta-nos vontade, falta-nos a ilusão de que amanhã respiraremos fundo e o ar novamente nos será leve. Falta-nos amigos, embora tenhamos tantos conhecidos. Mas não abandonamos a ideia de construirmos diariamente uma nova casa. Labuta sobre labuta, uma após a outra, tecemos a teia que desvenda o incógnito e afasta o falso.

Abolimos o temor e ousamos dar nome às coisas. Nenhuma autoridade nos controla ou dita o rumo dos nossos pensamentos e atos, a não ser nós próprios. A isso se diz ser consciente, fardo ingrato. Pode parecer pintado em obscuro, ser evanescente, é, porém, da cor dos nossos passos. Vivemos o trânsito ao imponderável, terrível saber nosso destino repousar em mãos alheias. Não há como furtar-se a este fato. Viver é uma aventura, a atenção nunca repousa. É assim que se atravessa tempos símiles, outros já houveram em nossa milenar paixão terrena. Nossos ancestrais se afadigaram em longas e incertas travessias e nos legaram este mundo devassado, complexo, impreciso. 

Levantemos, pois, as taças rubras do sangue da terra, bebamos o vinho que nos irmana e, juntos, prossigamos nossa jornada lenta, lentíssima e incerta, mesmo sabendo estarmos à beira do colapso, meio perdidos nas brenhas do acaso. O que importa é estarmos juntos e jamais trilhar o caminho dos penhascos. Juntos novamente chegaremos a um novo mundo.


Por Paulo Lima

São Paulo, 24 de dezembro de 2023


quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Desvendando o Balão Mágico: entre nostalgia, influência e reflexões geracionais

Eu não assisti ao documentário "A super fantástica história do balão" que conta a história do grupo musical infantil formado em 1982 Balão Mágico.

Não assisti ao documentário, infelizmente, porque não tenho acesso a todos os aplicativos que disponibilizam séries, filmes e documentários. No entanto, como parte de uma geração que se educou através da televisão na década de 90, movida pela curiosidade e pelo fato de já ter tido contato com as músicas do grupo infantil quando eles já eram adolescentes, fiquei curiosa e decidi procurar vídeos e artigos que discutissem o documentário.

Confesso que fiquei surpresa ao descobrir que um dos discos do Balão Mágico, mais especificamente o quarto álbum, trazia um brinde que consistia em um cheque de Cr$5 mil, incentivando as crianças a abrirem ou pensarem em abrir uma poupança na Caixa Econômica Federal, em 1985. Passei alguns minutos ponderando sobre a influência desse fato, algo que até então nunca havia pensado.


Fonte: wikipedia


Lembro que na época um tio meu acabou por abrir uma poupança para meu irmão, que ainda criança sequer pensava nisso, mas alguém tinha que cuidar do futuro dessa geração. Uma geração que agora, talvez, com o término dos anos ditatoriais, poderia finalmente vislumbrar um futuro.

Para o meu tio, um homem que vivenciou o período ditatorial e suas perseguições, a mensagem musical de um mundo colorido e incrível do Balão Mágico talvez fizesse mais sentido e trouxesse mais esperança do que para nós, crianças que crescemos entre a escassez e a expansão da produção industrial após os anos 90. Nesse sentido, discordo da visão apresentada por Huyssen (2004), que sugere que ao revivermos a memória afetiva através da televisão, retornamos a um local seguro da infância onde as preocupações da vida adulta não existiam. Isso não se aplicava a nós, pois de alguma forma já tínhamos que enfrentar as dificuldades da vida adulta, mesmo sendo ainda crianças, especialmente em meio à crise e à inflação daquela época. A memória da escassez ainda permanece em mim e posso dizer que moldou a minha forma de socialização. Por outro lado, reconheço que meu exemplo individual, embora tenha representatividade social, é apenas um caso que, do ponto de vista científico, poderíamos classificar como uma "evidência anedótica" interessante para reflexão, mas que não constitui um método e que nem é o objetivo deste texto.

Eu era praticamente um bebê naquela época e, portanto, não tenho lembrança desses acontecimentos. No entanto, achei interessante a reflexão feita pelo PH Santos, um youtuber que analisa séries, filmes e documentários e que comenta esta transposição histórica entre o mundo sombrio da ditadura o mundo colorido do Balão Mágico e de uma geração que agora poderia vislumbrar um horizonte.

De fato, naquele momento, estávamos emergindo da ditadura e havia a necessidade de construir um imaginário infantil para aquela geração, que seria o futuro de um Brasil que, embora não plenamente democrático, começava a mostrar indícios de... uma democracia restringida, para citar o Cueva. Isso era especialmente verdadeiro onde eu vivia, na periferia, onde a democracia era, e continua sendo, algo a ser construído no dia a dia.

Voltando ao Balão Mágico, aparentemente, a ideia de criar um grupo infantil surgiu como algo externo ou estrangeiro, que estava fazendo sucesso entre as crianças em outros lugares. E o seu retorno através de documentários neste momento também se relaciona com uma estratégia de engajar um público online, como foi bem discutido por Lessa & Junior (s.d.). Algo que voltarei a discutir em um próximo texto...

Elaine Santos

Referências

Huyssen, A., Moreira, S. V., & de Carvalho Moreno, C. A. (2004). Mídia e discursos da memória. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, 27(1).

Lessa, L. A., & Júnior, M. A. B. O retorno do Balão Mágico e a evocação de memórias na TV: um estudo sobre teleafetividade.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Retratos de um Tempo: heranças operárias e reflexões no ABC Paulista


Ontem, meu primo, vivendo a tristeza do seu luto e das mudanças que a vida tristemente impõe, me enviou esta foto. Nela, podemos ver meu pai (in memoriam) e minha tia, que faleceu recentemente. Mesmo eu ainda não tendo nascido quando este retrato foi feito, conheço as histórias que envolvem esta foto e muitas outras. 




Meu pai e minha tia eram amigos. Foi minha tia que apresentou meu pai à minha mãe. Todos trabalharam juntos em uma fábrica no ABC e depois meus pais casaram-se e essas pessoas continuaram sendo amigas ao longo do tempo... 

Eu acho incrível como as fotos antigas, diferentemente das fotos atuais, sempre parecem nos remeter a uma história muito mais ampla. Ou talvez seja eu querendo contrariar a realidade atual, onde o "EU" prevalece sobre qualquer outra coisa, e esteja querendo ver na foto o histórico existente naquele período. A exemplo das teorias, ninguém mais discute a teoria em si, mas sim o "EU" na teoria... e tudo se esvai porque já não existe um sentido social e coletivo do teórico, mas o sentido individual de análise que é o que parece importar em tudo. 

Numa espécie de movimento contrário, deixo de olhar o "EU" para observar o entorno que esta foto poderia me oferecer... O que estariam eles pensando? Quem fez esta foto? Quais eram seus sonhos em um estado de São Paulo já industrializado no ABC, onde nasci? Quase todos os que viveram naquele período possuem alguma relação com as fábricas. 

E é por isso que meu pai, minha tia e seus amigos possuem um aspecto de estudantes e jovens trabalhadores...uma história comum naquele contexto e com um comportamento específico que caracteriza o sentido de suas vidas, como pertencentes a uma classe e imprimindo as atividades que exerciam. 

Sem esquecer de mim, porque, obviamente, mesmo sendo produtos sociais, também existimos individualmente... Quando olho esses olhos ainda em uma foto em preto e branco, também me vejo um pouco neles. E é isso que nos dói no momento de luto: a gente perde aquele olhar que parece ser a única coisa verdadeira nesse mundo recheado de mentiras e falsas aparências... O fato é que, ao olhar a foto, me vejo nessas pessoas e sei que suas formas de ser e viver reproduziram em nós, do ABC Paulista, efeitos sociais, simbólicos, afetivos e econômicos das suas relações subjetivas com a condição operária, e esta foi a maior herança material que recebemos: o olhar sobre o mundo pelo viés do trabalho, da repetição e da organização dos muitos iguais. 

Lembro do meu pai ter ficado feliz quando o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) passou a admitir garotas, porque agora a filha dele, que ele considerava muito inteligente, poderia seguir seu caminho e se tornar também metalúrgica, pois ali havia um ônibus que levava e buscava, o salário era bom e pago corretamente... lá a gente tem direitos! (dizia ele). Nunca consegui concretizar esse sonho do meu pai, até porque essa realidade já não existe. O nosso referencial de sucesso não era externo, mas estava baseado na realidade e somente na realidade, ou seja, aquilo que saciaria, de forma simples, as nossas necessidades básicas. 

Eu gosto da análise sociológica que diz que normalmente os pais desejam que seus filhos alcancem posições sociais melhores do que as suas. Entre os chamados "operários", essa herança pouco ascendente não era necessariamente um problema; ao contrário, a aceitação dessa continuidade era motivo de orgulho. 

Os metalúrgicos do ABC daquela época são muito orgulhosos de si e de sua história, e por isso o estudo profissional era o nosso caminho... e é também por isso que até hoje sei usar um paquímetro, graças aos ensinamentos da minha mãe. Porque isto era tudo que precisávamos na vida, conhecer profundamente os nossos futuros instrumentos de trabalho e ser consciente da nossa condição no mundo... a consciência da repetição, do anonimato individual na esfera pública, do aparecer nos livros de história sendo só coletivo (Os metalúrgicos do ABC) da submissão e da resistência…e foi assim que seguimos.

Elaine Santos 


terça-feira, 13 de junho de 2023

13 de Junho, dez anos depois

O texto a seguir foi escrito em junho de 2013, no auge das manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Publico este relato em meu blog com o intuito de manter viva a percepção daquele momento político e social brasileiro.

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Acabamos de chegar da manifestação na Avenida Paulista e retomamos o cenário que presenciamos exatamente há uma semana, quando todos estavam lutando por um objetivo comum: a redução da tarifa. E não, não é somente por 20 centavos; na verdade, é contra a violência que o capital promove diariamente. Tomamos bombas, tivemos enfrentamentos com a tropa, mas vimos uma juventude disposta a lutar.

Nas últimas manifestações, dada a comoção nacional ante os abusos da força policial, o que notamos foi uma mudança de paradigma, momento no qual a direita se colocou e claramente se apropriou de um senso comum, enfatizando uma luta ufanista, um nacionalismo exacerbado. O que vimos hoje foi um ato cívico fascista disputando pautas diversas e conflitantes. Dentre elas, o fim da corrupção e a redução de impostos, sem considerar as bases que conduzem a tais contradições e desigualdades. Por outro lado, partidos políticos com histórico de luta (ainda que possuam limitações para o que pensamos e queremos de uma esquerda) foram hostilizados, tiveram bandeiras queimadas e foram expulsos de um ato que deveria trazer à baila um objetivo comum e que agora oportuniza apenas a universalização de interesses particulares, os interesses de uma extrema direita em sua retomada.

Por fim, após a expulsão, o que acompanhamos foi um movimento da "esquerda" em uma tentativa de unificação combativa a este pujante levante de uma juventude despolitizada e dispersa, que aparenta reproduzir um discurso moralizante, que se indigna, mas não apregoa mudanças reais e efetivas.

Não há pressa política e nem espaço para isto na imediaticidade. Mas, para aqueles que anseiam uma transformação nas bases sociais, se faz urgente repensar suas ações e posições diante de tudo que estamos vivenciando, sem distanciamentos (teoria e prática), retomando as questões concretas e buscando respostas na história.

Caroline Rodrigues  
Elaine C. S. dos Santos  
Flavia Bigai

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Para os que virão

Como sei pouco, e sou pouco,

faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Thiago de Mello

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

(Poemas Inconjuntos, Alberto Caeiro - heterónimo de Fernando Pessoa)

terça-feira, 2 de agosto de 2022

A minha mãe

Quando ela acabou, foi colocada na terra

Flores nascem, borboletas esvoejam por cima…
Ela, leve, não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!

Bertold Brecht

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Fernando Pessoa


Eu amo tudo o que foi, 
Tudo o que já não é, 
A antiga e errónea fé, 
O ontem que dor deixou, 
O que deixou alegria 
Só porque foi, e voou 
E hoje é já outro dia.
A dor que já me não dói, 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Haiti: a ocupação sem fim

 

Será que a chamada "comunidade internacional" tropeçará novamente na mesma pedra do humanismo que nega o ser humano, a justiça controlada à distância e a paz nos cemitérios?



Lautaro Rivara é sociólogo, jornalista e analista internacional. 


Um jornalista de uma importante agência de notícias internacional pergunta, com aparente boa fé: "E quem você acha que deveria resolver os problemas dos haitianos?" Lembro-me então de um antigo exercício de lógica, que recomenda transpor os termos ou os assuntos de um enunciado para pesar sua razoabilidade. A questão, por si só, revela seu ridículo, apenas por aplicá-la a qualquer outro país: quem deveria resolver os problemas dos Estados Unidos, por exemplo, um país que viu seu Capitólio ser assaltado por hordas de trumpistas? E quem deve resolver os problemas na França, abalada pelas espasmódicas e massivas manifestações dos chamados “coletes amarelos” desde outubro de 2018, com uma participação estimada, até o momento, de mais de 3 milhões de pessoas? Ou os da Inglaterra, cujo projeto tumultuado de desligamento europeu incluiu, entre outros problemas, o fechamento do aparentemente exemplar Parlamento britânico em agosto de 2019, por decisão do primeiro-ministro Boris Johnson? Certamente poderíamos concordar que os responsáveis pela solução de todos esses (e ainda mais graves) problemas nacionais são, respectivamente, os americanos, os franceses e os britânicos. Por que então, não podemos responder com a mesma naturalidade cada vez que o Haiti entra, excepcionalmente, na agenda global? Por que é necessário afirmar e reafirmar o óbvio, ainda mais considerando que este povo é independente há 217 anos? 


*** 

O Haiti possui vários recordes em termos de intervencionismo. De todas as operações de reconquista colonial sobre as nascentes repúblicas latino-americanas e caribenhas que obtiveram sua independência no início do século 19, nenhuma foi tão massiva quanto a organizada em 1801 por Napoleão Bonaparte e seu cunhado Emmanuel Leclerc, comandando mais de 43.000 homens e a maior frota da época. Tratava-se, então, de recuperar a rebelde "Pérola das Antilhas", cuja economia escravista de plantation significava para a metrópole francesa cerca de um terço de sua receita. Essa parte da ilha foi, na época, presa do fervor revolucionário que daria origem, em 1804, ao nascimento da República do Haiti.


Como correlato dessa liberdade pioneira, o Haiti também teria o triste privilégio de ter sofrido a primeira dívida externa, imposta por uma frota de guerra francesa ancorada na baía de Porto Príncipe em 17 de abril de 1825. Em uma daquelas típicas cenas “com as pernas para o ar”, como diria Eduardo Galeano, os senhores de escravos exigiam dos ex-escravos indenizações por danos, obrigando a nação a pagar uma soma, escandalosa para a época, de 150 milhões de francos. Mas nem todos esses "recordes" teriam a França como protagonista. Das centenas de ocupações, invasões, desembarques e pirataria dos EUA neste hemisfério - incluindo a conquista de grande parte de seu próprio e atual território, confiscado do México entre 1846 e 1848 - nenhuma foi tão extensa quanto a ocupação dos Estados Unidos, presente no Haiti com seus fuzileiros navais por 19 longos anos entre 1915 e 1934. 

Podemos citar também a participação de organizações supranacionais. De todos os países intervencionados por missões civis, policiais ou militares das Nações Unidas, nenhum viu tantos contingentes estrangeiros tocarem o território nacional, pelo menos nas últimas décadas: um total de 9 missões de diferentes signos tiveram sucesso nos últimos 28 anos. Além disso, nesse período, o Haiti passou apenas dois anos (2002 e 2003) sem uma presença estrangeira formal, e continua até os dias atuais, com a presença do BINUH (o Escritório Internacional das Nações Unidas no Haiti, para o seu acrônimo em francês) e pela ainda pendente aplicação ao Haiti do Artigo VII da Carta da ONU que presumivelmente rege os casos de "ameaças à paz" ou "atos de agressão" e aponta para o Conselho de Segurança como uma espécie de autoridade final no país. Mas ainda é preciso citar outro caso de intervenção estrangeira que costuma passar despercebido: o onguismo colonial. Segundo vários estudos, estima-se que haja 12.000 ONGs presentes no Haiti, com a república caribenha atingindo a maior concentração per capita do mundo, o que lhe valeu o apelido sorridente de "república das ONGs" ou, pior ainda, "HaitONG". A grande maioria dessas organizações é, naturalmente, de origem estrangeira, ou pelo menos simplesmente subsidiárias locais de grandes agências de cooperação internacional, como a Comissão Europeia ou a norte-americana USAID. A personificação do estado e de suas funções, a cooptação de líderes locais de organizações territoriais e a disseminação de todos os tipos de acusações e teorias coloniais são alguns de seus resultados mais notórios. 

*** 

Em 23 de novembro de 2018, tivemos o triste privilégio de conhecer o último desdobramento operacional da Missão das Nações Unidas para o Apoio à Justiça no Haiti (MINUJUSTH), sucessora da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (a muito mais conhecida MINUSTAH)



Bloqueados e incomunicáveis em Porto Principe, incapazes de retornar à nossa cidade rural em Montrouis, nós literalmente colidimos com os Capacetes Azuis a apenas dois quarteirões da casa onde uma família generosa nos abrigava enquanto acompanhamos as mobilizações e passamos pela turbulência que havia bloqueado a estrada. Eram os ecos da insurreição popular de julho de 2018 contra a “recomendação” do Fundo Monetário Internacional (FMI) de eliminar os subsídios aos combustíveis. 


Dificilmente poderíamos fazer justiça a essa cena. Num ano como aquele, turbulento, dramático, heroico, em que o povo haitiano saiu às ruas quase diariamente com centenas de milhares de pessoas, as forças pretorianas da ordem internacional passaram a restringir o legítimo direito de rebelião deste povo que sempre tem uma última palavra, um último gesto, uma última revolta tirada do fundo de reservas morais aparentemente inesgotáveis. Imagine a avenida mais importante ou emblemática da capital de cada um de seus países. Agora imagine-o ao longo de suas centenas de metros, ocupado, em cada esquina, por um posto de controle de um contingente militar de um país diferente. Assim, puderam identificar ali o canto dos paquistaneses, dos brasileiros, dos nepaleses, dos croatas, dos filipinos, dos argentinos, dos norte-americanos, dos franceses. Todos bem armados e equipados, acompanhados por veículos blindados e carros hidrantes, diante de um povo em choque, de olhos bem abertos, colados nas fachadas dos prédios como se fosse um boxeador contra as cordas. Agora contam com 23 esquinas, pois 23 países foram os que passaram a ocupar, simultaneamente, um povo pacífico e desarmado, sem forças militares e sem histórico de agressão a terceiras repúblicas - muito pelo contrário, com uma longa história de solidariedade e gestos desinteressados para países tão diferentes como a Colômbia, a República Dominicana, os Estados Unidos ou a Argentina. A mesma coisa aconteceu, não uma, mas centenas de vezes na Avenida de Delmas, o equivalente exato, no Haiti, de cada uma dessas largas avenidas da capital: uma rua que corta longitudinalmente a área metropolitana, a partir da Baía de Porto Príncipe para o distrito de Pétionville, transformado na trincheira sem fim das forças multilaterais de ocupação.




Fonte - Haiti tem série de protestos intensos desde 2018 - 
ORLANDO BARRÍA/EFE - 14.02.2021


É fácil refutar os argumentos intervencionistas, quando procuram justificar-se valendo-se do arsenal conceitual do antigo colonialismo que todos conhecemos. Quando se referem à "selvageria" das tribos "bárbaras"; ao caráter "pré-lógico" das mentalidades não ocidentais; ao “paganismo” dos povos “animistas” e “fetichistas” que devem ser evangelizados com cruzes e espadas; à irredutível "animalidade" dos negros e afrodescendentes que talvez tenham alma; à "ociosidade" e à "preguiça congênita" de sujeitos que definham sob o sol dos trópicos; à "ingovernabilidade" e à necessidade de proteger as sociedades "recém-nascidas" para uma vida independente; às "vantagens comparativas" de quem parece condenado pela providência a vender alimentos e minerais para importar veículos e satélites. Mas é muito mais difícil lidar com os argumentos intervencionistas contemporâneos, tanto mais elaborados e sofisticados, que já não dispensam o apelo cínico, mas sincero, às prerrogativas dos mais fortes e ao direito de conquista. Tanto a MINUJUSTH como a MINUSTAH foram justificadas no seu tempo por uma série de pleonasmos que, embora já fizessem rir o mais inventivo dos nossos escritores, não deixaram de ser menos eficazes: o "intervencionismo humanitário", a "responsabilidade de proteger", o " princípio da não indiferença ", ou" a salvaguarda da segurança nacional dos Estados Unidos "eram alguns dos seus álibis. Essas forças de ocupação permaneceram no território nacional por 15 anos, o equivalente a três mandatos presidenciais plenos. Totalmente abolidos foram os antigos e presumidos pilares da ordem jurídica internacional, a saber, o princípio da soberania e o direito à autodeterminação das nações. 

*** 

Seria extenso e também ocioso fazer um balanço completo do equilíbrio dessa intervenção: jornalistas, acadêmicos, organizações de vítimas, movimentos de mulheres e feministas já o fizeram de maneira brilhante e enfática. Mas talvez possamos citar: políticas sistemáticas de violência sexual, que incluíram abusos, pedofilia, estupro e a participação dos Capacetes Azuis em redes de prostituição e tráfico. A perpetração de vários massacres em alguns dos bairros mais populosos da área metropolitana, como o, conhecido mundialmente, que ocorreu em Cité Soleil: o resultado dessas escaramuças foi o assassinato de centenas de jovens, o aniquilamento de organizações inteiras e a desmobilização de bastiões de resistência popular e organização comunitária onde agora florescem organizações criminosas, gangues armadas e um incipiente tráfico de drogas. E, claro, um dos maiores crimes desses mais de dois séculos de intervencionismo ocidental no Haiti: a introdução de uma epidemia de cólera pela MINUSTAH despejando um caminhão de dejetos fecais com o vibrião da doença em um afluente do rio principal. do país, o que causou vários milhares de mortos e mais de 800 mil infectados. 

Os pedidos de reparação e justiça das vítimas colidiam com a inconsistência das Nações Unidas que interpretam sua supranacionalidade como supralegalidade, assumindo sua “culpa”, mas não sua “responsabilidade” em termos jurídicos. Enquanto escrevemos isto, um novo terremoto político sacode o país: o assassinato do presidente de fato Jovenel Moïse na madrugada de 7 de julho em sua residência privada em Pèlerin. Mais uma vez, com uma realidade nacional sobredeterminada do exterior, e com um crime, internacionalizado, que envolve 28 mercenários e paramilitares de nacionalidade estadunidense e colombiana. Diante do vácuo de poder gerado, e induzido pelo próprio Ocidente, ao apoiar um regime como o de Moïse, que um ano e meio atrás havia consumado o colapso da ordem democrática - sem Parlamento, sem eleições, sem primeiros-ministros legais e com seus mandato. constitucional expirado-, vários poderes e organizações estão agora posicionados no mesmo caminho de intervencionismo sem fim. 

A Colômbia de Iván Duque, que participa do próprio assassinato com soldados aposentados de suas Forças Armadas, insta a Organização dos Estados Americanos a intervir peremptoriamente na ilha. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, está disposto a "ir em auxílio do Haiti", enquanto o Departamento de Estado confirma o envio de agentes do FBI e da Agência de Segurança Nacional. O presidente da vizinha República Dominicana, Luis Abinader, está acelerando os planos de construção de um muro de fronteira que divide a ilha de Hispaniola. Ao mesmo tempo, o Conselho de Segurança das Nações Unidas se reúne, a portas fechadas, tendo o Haiti e sua crise como ponto central de sua agenda. Será que a chamada "comunidade internacional" voltará a tropeçar na mesma pedra do humanismo que nega o ser humano, a justiça controlada à distância e a paz nos cemitérios? 


Será que assumirá desta vez, perante uma nova e eventual intervenção, a sua responsabilidade no extermínio de conta-gotas, no caos induzido, na violência sexual sistemática e na propagação de epidemias? Os Estados membros da ONU e seu Conselho de Segurança apoiarão, sob cálculos mesquinhos ou argumentos francos, uma nova guerra unilateral desse tipo ou qualquer de suas variantes concebíveis? 


Mais uma vez, e pela enésima vez, a espada de Dâmocles de ocupação sem fim paira no ar.






quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Amílcar Cabral. os colonialistas nos fizeram deixar nossa própria história.



Ignorar o passado nos impede de saber lidar com o presente. Não queremos exploração nem aqui, nem ali, tampouco pelo próprio povo negro.

Temos que nos defender de tudo: imperialismo, colonialismo, colonialismo interno.

Não temos liberdade até hoje.

Contamos a história de um ponto de vista.

Nossa própria cultura, baseada em nossos valores.

O povo português não é nosso inimigo; nós lutamos contra um sistema.

Economia planejada.

Economia que alimenta o povo.

A teoria é uma arma - o marxismo não era seu aporte.

Ibn Khaldun.

Queria acabar com o estado colonial.

Reformar a história dos opressores.

Educar os africanos para se preparar para o futuro.

Em 1973, foi assassinado... mataram um líder.

Unidade como meio para lutar.

A realidade existe independentemente do homem (p. 21).