quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Gramsci para 2020

Toda manhã, ao acordar mais uma vez sob o manto do céu, sinto que para mim é o primeiro dia do ano.

Por isso odeio estes anos novos a prazo fixo, que transformam a vida e o espírito humano em uma empresa comercial, com sua prestação de contas, seu balanço e suas previsões para a nova gestão. Eles fazem com que se perca o sentido de continuidade da vida e do espírito. Termina-se por acreditar a sério que entre um ano e outro exista uma solução de continuidade e comece uma nova história; fazem-se promessas e projetos, as pessoas se arrependem dos erros cometidos, etc. É um equívoco geral que afeta todas as datas.

Dizem que a cronologia é a ossatura da história. Pode-se admitir que sim. Mas também é preciso admitir que há quatro ou cinco datas fundamentais, que toda pessoa conserva gravadas no cérebro, datas que tiveram efeito devastador na história. Também elas são primeiros dias de ano. O Ano Novo da história romana, ou da Idade Média, ou da era moderna. Elas se tornaram tão presentes que nos surpreendemos a pensar algumas vezes que a vida na Itália começou em 752, e que 1490 ou 1492 são como montanhas que a humanidade ultrapassou de um só golpe para entrar em um novo mundo e em uma nova vida.

Com isso, a data converte-se em um fardo, um parapeito que impede que se veja que a história continua a se desenvolver de acordo com uma mesma linha fundamental, sem interrupções bruscas, como quando o filme se rompe no cinema e se abre um intervalo de luz ofuscante.

Por isso odeio o ano novo ano. Quero que cada manhã seja um ano novo para mim. A cada dia quero ajustar as contas comigo mesmo e renovar-me. Nenhum dia previamente estabelecido para o descanso. As pausas eu escolho sozinho, quando me sinto embriagado de vida intensa e desejo mergulhar na animalidade para extrair um novo vigor.

Nenhum disfarce espiritual. Cada hora da minha vida eu gostaria que fosse nova, ainda que vinculada às horas já passadas. Nenhum dia de júbilo coletivo obrigatório, a ser compartilhado com estranhos que não me interessam. Só porque festejaram os avós dos nossos avós, etc., teremos também nós de sentir a necessidade de festejar? Tudo isso dá náuseas.

Espero o socialismo também por esta razão. Porque mandará para o lixo todas estas datas que já não têm nenhuma ressonância em nosso espírito. E se o socialismo vier a criar novas datas, ao menos serão as nossas e não aquelas que temos de aceitar sem benefício de inventário dos nossos ignorantes antepassados.

Turim, 1º de janeiro de 1916.

* Tradução ao português tomando por base o texto em Espanhol Tomado do Livro “Bajo la Mole - Fragmentos de Civilización”, de Antonio Gramsci. Editorial Sequitur, Págs. 9-10.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

*A Tragédia de Paraisópolis e a Indiferença diante da Barbárie*



A única novidade desse domingo era ser o 1° de dezembro, do assombroso ano de 2019, que parece ser 1808, 1850, ou qualquer ano imperial, escravocrata em que a democracia esteve por um fio.

Cedo as primeiras notícias de que houve mais uma tragédia na segunda maior favela de São Paulo, Paraisópolis, ali colada aos bacanas do Morumbi, que enfeia a paisagem, com a imagem da exclusão. 

A tensão aumenta a cada novo vídeo,  a narrativa da Polícia Militar, de que perseguiu dois fugitivos e que estes provocaram o tumulto, se dissolveu em horas, com as imagens dos celulares dos sobreviventes da tragédia. 

A intensa troca de telefonemas e de mensagens, com o Ouvidor da Polícia, com integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP, com advogados e com jornalistas vai alterando a percepção da enorme gravidade, o clamor contra impunidade aumenta.

A noite caí, a nota da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP e a fala da Presidente da Comissão têm grande repercussão, mãos notas de entidades de Direitos Humanos, reforçam a necessidade de exigir rigorosa apuração.

O fechar de domingo parece certo, entretanto somos chamados para ação, os corpos das vítimas estão sendo liberados pelo Instituto Médico Legal (IML) sem a certeza de que as perícias foram feitas com os detalhes necessários para esclarecimentos das mortes.



Fonte - google 


Somos levantados para entrar na segunda, em  pleno IML, ali é o último e mais doloroso recanto da tragédia, as famílias e familiares são chamados para reconhecer e levar seus mortos. 

Chegando lá um grupo de jornalistas ávidos por um fiapo de história,  mesmo com a gigante tragédia ali, aos seus olhos. Deram com a falta de vontade do IML para apenas dizer como foram feitas a perícia, ainda que questionados por nossas entidades legítimas, OAB e CONDEPE,  resposta padrão,  amanhã voltem aqui, pois não tem ninguém responsável que possa falar.

Encontramos as últimas famílias, o choro desesperado de um senhor, nos chama a atenção, corremos para acolhê-lo, dar água e conversar.

Rapidamente nos conta que acabou de reconhecer seu filho, ainda que "não nasceu de mim, mas era meu, apesar de descender de pai japonês, diziam que parecia comigo". Repete que ele faria 21 anos em janeiro. 

Minutos depois uma moça grita desesperada, viu uma foto do rosto e braço tatuado de sua prima/irmã, mal completara 18 anos, estava desgarrada, não tinha pai e nem mãe, era criada pelo tio, que chega depois.

Mesmo com insistência, não somos atendidos,  a veia de advogado fala mais alto, de próprio punho registramos nossos protestos pela recusa do IML em fornecer informações precisas e essenciais ao caso.

A comoção da madrugada segue uma dor e um resto de noite insone, como dormir diante de tão dilacerante tragédia, pensar naqueles jovens encurralados numa viela estreita, numa correria insana, acabam por morrer, naquilo que seria apenas um baile funk, de celebrar a alegria, dos mais simples, periféricos e pobres de um sociedade que os excluiu.

A vida acorda mais triste e o peso de nossas responsabilidades aumenta a cada dia, a pela dignidade humana, pelos direitos fundamentais e humanos, que o Estado chegue aos mais pobres, não por balas, mas por inclusão e paz.

A utopia nossa que dias/madrugadas assim, é  posta em xeque. 

*Arnobio Rocha - Coordenador do Núcleo de Ações Emergenciais e de Defesa de Direitos Ameaçados, da comissão de direitos humanos da OAB/SP*

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Resposta a Rita Segato


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A escritora ativista e feminista Rita Segato acerca da situação em Bolívia geraram muito ruído, muita indignação por parte de alguns setores, me parece que é importante poder refletir a respeito, colocar em discussão, em profunda discussão o que ela disse.

A escritora disse “para mim Evo não foi vítima de um golpe, mas sim vítima de um descredito geral, caiu por seu próprio peso, por um vazio de poder que foi gerado por muitos erros e excessos.  Segato acrescentou que se manifestava contra uma visão binária e assegurou que por mais que “Camacho seja uma figura malvada, isto não implica que Evo seja uma figura perfeita” e seguiu com outros parágrafos.

O primeiro que quero dizer é que toda intelectualidade que está localizada fora dos valores e da defesa da vida, são uma farsa
Toda analise social e política que alguém queira fazer que não tenha como caminho a dignidade do ser humano que não se veja através do prisma do direito mais fundamental que é o direito a vida, é uma farsa, digam o que quiserem. Ademais, a verdade é que difícil aceitar que um intelectual até os dias de hoje não assuma que sua palavra, desde o momento que sai da sua boca em primeiro momento é uma palavra coletiva, a partir da confiança construída por este intelectual seja homem ou mulher, etc.

Isto faz desta palavra, uma palavra muito mais poderosa, portanto, deveria ser muito mais responsável, se bem que Segato não nega o golpe de Estado, mas o justifica e é muito grave que uma intelectual do campo nacional e popular coloque em sua voz o relato do golpista o relato dos negacionistas, e mais grave ainda é que sua voz, que não é qualquer voz, seja o relato que aplaude o opressor e o torturador

Justificar o golpe de estado em Bolívia, com a justificativa que em não cair no em uma visão binária é francamente irrisório, porque temos que dizer a ela que a visão...claro que é binária porque estamos falando entre a vida e a morte

Primeiro temos que dizer que é obvio que Evo não é perfeito, ainda que Camacho seja um monstro, Evo não é perfeito, porque se este é o binarismo que ela quer escapar, escutem!! porque o binarismo pode ser um extremo negativo, agora tudo dá igual ou é a mesma coisa também é negativo e nesta caso, diante as duas possibilidades, diante dois extremos, fico o binarismo.

Porque insisto hoje Bolívia é binaria, está entre a vida e a morte está entre os que matam e os que morrem, entre a democracia e a ditadura. Colocar como argumento do golpe, os supostos erros de Evo é nem mais nem menos que buscar na vítima algo que a torne culpada. E isto não se pode permitir a ninguém, muito menos a alguém que construiu sua intelectualidade em defesa das vítimas, você não é qualquer pessoa Segato, você não pode dizer isto.

Que arrogância é preciso ter, que comodo deve estar em sua poltrona, que bom deve estar o ar puro, que acolhedor deve estar tudo, como disse ontem o psicanalista Jorge Aleman[1] "No momento em que o carrasco levanta o machado, convidam a vítima a 'desconstruir-se'"

É uma loucura!!

Me pergunto o quão alto está a vossa intelectualidade que não pode ver e sentir a dor alheia. Humildemente, um simples comunicador te convida a desconstruir  sua intelectualidade embarreirada  há um bom amalgama entre a universidade  e o “barro” proponho, com respeito a ti, que coloque sua intelectualidade, seu saber seu conhecimento a serviço dos povos que querem se libertar e ter dignidade e não os entregue em bandeja aos violentos e opressores. Estão massacrando o povo indígena boliviano, estão matando homens e mulheres e Segato nos pede que enquanto isto, enquanto os matam, faça uma autocrítica, não faz falta que lhe diga que se tiraram Evo do poder é pelo que fez bem.

Segato, a direita não avalia os erros e a partir dos erros age, a direita entende que nós, o campo nacional e popular, somos o erro em si mesmo. É ideológico, não conjuntural, se basear no fato que os erros de Evo estão sendo pagos com sangue nas ruas é imperdoável e não tem volta atrás, colocar nas mãos de Evo o sangue de seu povo é de uma miserabilidade própria de uma intelectual, mais autocentrada do que preocupado com aquilo com a rodeia.

Argumentar como parte da justificativa que evo era machista é irrisório e ainda te aproxima dos fascistas

Evo era machista? Sim, evo era machista, lastimo que em sua analisa não tenha falado da igreja machista que entrou a dar o golpe, do império machista que impulsionou o golpe, nem dos militares machistas que estão executando o golpe, parece que o machismo golpista não foi contemplado na análise.

E quero agregar um dado, conhecendo o que Evo é, posso dizer que é uma pessoa com diversas afirmações machistas, o governo de Evo o que levou adiante a lei contra o racismo e toda a forma de discriminação contra a mulher e contra a perseguição, a violência política, contra a mulher também levou adiante Evo. Antes de Evo somente 15% dos títulos agrários estavam nas mãos de mulheres, hoje são 46% dos títulos agrários estão em nome de mulheres. Segundo a ONU, Bolívia é o terceiro pais como maior participação política das mulheres, que Evo é machista? Sim, estamos todos neste processo. Lastimo que a intelectualidade de Segato esteja tão longe da vivência das mulheres bolivianas, sobretudo das mulheres “camponesas” estão sendo assassinadas agora, não quero pensar realmente, não é irónico, que seu feminismo não esteja apto as mulheres indígenas. A discussão não é sobre você, mas sim sobre o autoritarismo, sobre o racismo e até a inquisição religiosa. Não sei que revolução é possível propagar se não condenamos a violência aos direitos humanos primeiro. Em nome de nada se pode banalizar o mal, sinto que Segato perguntou a Evo, o que você fez?

É uma lastima, suas palavras doem Segato, porque dá de comer as feras em um momento onde estas estão desesperadas e com fome, prestes a devorar este povo, que resiste, lastimo pagarmos tão caro, a direita lhe celebra e lhe aplaude de pé

 O texto é uma tradução do vídeo 



 O artigo original de Rita Segato





[1] “En el momento en que el verdugo levanta el hacha invitan a la víctima a 'deconstruirse'”

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Bruzundanga



Afonso Henrique de Lima Barreto, nosso escritor, em um texto pouco divulgado



Bruzundanga





A obra é uma sátira dos primeiros anos da República brasileira. Bruzudanga é um país fictício, onde havia, tal como na Primeira República, diversos problemas sociais, econômicos e culturais e o ricos pseudo eruditos.


"Qdo (em geral) vão estudar medicina, ñ é a medicina q eles pretendem exercer, ñ é curar, ñ é ser um grande médico, é ser doutor; qdo se fazem oficiais do exército ou da marinha, ñ é exercer as obrigações atinentes a tais profissões, tanto assim q fogem de executar o q é próprio a elas" (p.5).


Lima Barreto fala da mediocridade da "Escola de Samoeida" a escola da elite e da nobreza bruzundanguense que sempre se vê como reflexo da primeira. Onde fingem a todo momento. O interessante na obra analisada junto com a vida do autor, é sua forma å brilhante em alcançar as estruturas de uma sociedade qdo ele, homem negro e psiquicamente adoentado está sempre a margem dela.


Cita tb pessoas com MENTALIDADE DE PARVENUS: termo francês q designa o indivíduo que ascendeu socialmente, mas nunca aprimorou seu modo de agir.






Fonte google 


Todos os samoiedas limitavam-se quando se tratava dos tais assuntos, a falar muito de um modo confuso, esotericamente, em forma e fundo, com trejeitos de feiticeiros tribais.Não nego que houvesse entre eles alguns de valor, mas os preconceitos da escola os matava.A maioria ia para ela, porque era cômoda no fundo, pois não pedia se comunicasse qq emoção, qualquer pensamento, qualquer importante revelação de nossa alma que interessasse outras almas; que se dissesse usando dos processos artísticos, novos ou velhos,de um pouco do universal acha com eles e se vai além por meio deles. (p.10)

A sua ciência e saber foram logo muito gabados, pois o Tesouro da Bruzundanga, andando quase sempre vazio, precisava desses mágicos financeiros.

Chamava-se o deputado -- Felixhimino Ben Karpatoso. Se era advogado, médico, engenheiro ou mesmo dentista, não se sabia bem; mas todos tratavam-no de doutor." (p.11)

O famoso Dr. senhor político - juiz, presidente era Khapet em Bruzundanga, mas poderia ser a Zona Sul do Rio de Janeiro, Alphaville em SP, ou um bairro nobre de qq um dos nossos Estados. Lima Barreto colocou a nu nossa elite medíocre revelou o racismo sendo tb vítima deleLima Barreto é nosso e não merece ser esquecido, até porque continua muito atual.

domingo, 13 de outubro de 2019

Uma Abertura no Equador



Por Décio Machado


Uma abertura


O surto popular desencadeado pelas exigências do FMI abala um país em transição e põe em xeque o governo de Lenín Moreno. Confrontado com a atual administração e a oposição correista, um movimento indígena renovado lidera os protestos com uma ambiciosa plataforma de reivindicações.

O Equador está imerso em uma greve geral. Nesta semana, o prédio da Assembleia Nacional foi ocupado por manifestantes, depois que os poucos funcionários públicos que estavam lá dentro foram evacuados às pressas: os legisladores foram os primeiros a deixar o navio um dia antes. O slogan de um setor dos mobilizados é: "O governo da Assembleia dos Povos em Quito e o governo de Lenin em Guayaquil". Nestes momentos, tudo pode acontecer. A Ouvidoria confirmou pelo menos cinco mortos em relação a protestos e brutal repressão policial. Os detidos são estimados em cerca de 800, segundo dados oficiais.



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O gatilho


Na quinta-feira, 3 de outubro, a liderança da Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie) convocou, juntamente com setores do sindicalismo tradicional, uma greve nacional com o objetivo de expressar sua discrepância em relação às últimas medidas econômicas do governo. O anúncio do Conaie levou ao início de uma série de mobilizações em diferentes localidades do país e de assembleias permanentes em territórios com forte presença indígena, com o objetivo de coordenar uma grande mobilização em Quito na demanda pela revogação do decreto 883, que incluía o aumento dos preços dos combustíveis em todo o país.

O antecedente desta medida encontra-se nos acordos estabelecidos pelo governo equatoriano com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Essa agência financeira multilateral exige dos cofres públicos uma otimização econômica de 1,5% de seu PIB por meio de reformas tributárias, em troca de conceder a eles mais de 10.000 milhões de dólares em financiamento nos próximos três anos. O problema do desequilíbrio econômico do Equador não é novo: já em 2016 - a última fase do mandato de Rafael Correa - havia relatórios que recomendavam um ajuste fiscal assertivo para preservar a estabilidade macroeconômica e financeira do país, como resultado do desequilíbrio entre gastos e despesas. renda nesta economia dolarizada desde o início do século. O governo correista decidiu, na época, manter esses relatórios em reserva e não os publicar diante da população.

Duas opções tiveram que ser tratadas pelo governo presidido por Lenín Moreno diante de tais demandas de arrecadação de fundos: ou aumentar o IVA em três pontos percentuais - uma medida que, segundo a mídia, parecia ser a mais provável e, em princípio, mais regressiva - ou a que foi definitivamente aprovada. A priori, a opção adotada pelo governo equatoriano parecia ser a menos conflitiva.
Um modelo de subsídio com baixa eficiência, que não tinha foco e que beneficiava principalmente grandes empresas com alto consumo de combustível, grandes frotas de transporte e setores de elites econômicas que possuem mais de um veículo por unidade familiar, parecia ser o que menos rejeição social poderia gerar. Dessa forma, Moreno decretou o fim dos subsídios, o que implicou um aumento notável nos preços da gasolina “extra” - a mais utilizada no país -, passando o galão de 1,45 para 2,41 dólares. Da mesma forma, a gasolina da Ecopa (extra com etanol) aumentou de 1,45 para 2,53 dólares e a super, de 2,3 para 3,07 dólares.




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Estados de exceção


Por experiência histórica, o povo equatoriano está ciente de que o aumento dos preços dos combustíveis afeta o bolso da sociedade como um todo, sejam eles proprietários de veículos ou não. Os preços das commodities e os indicadores de inflação são geralmente afetados indiretamente por esses tipos de medidas. Mas o descontentamento geral entre a sociedade não mudou a posição de Moreno, que afirmou permanentemente que a liberalização do preço do combustível a custos internacionais é uma política necessária para a melhoria das finanças públicas e sobre a qual “não há progresso. voltar”.

As organizações sociais equatorianas definiram as medidas econômicas estabelecidas pelo governo como um “pacote” neoliberal, argumentando que fazem parte de um modelo de política pública que beneficia fundamentalmente os setores empresariais, torna o mercado de trabalho mais flexível e reduz o Estado, enquanto desempregam vários funcionários públicos em crescimento.

Assim, durante o final de semana passado, mobilizações e assembleias indígenas ocorreram em grande parte do território nacional, apesar do governo nacional ter decidido declarar o estado de emergência, na tentativa de suspender ou limitar o exercício de vários direitos, como a inviolabilidade de endereços, liberdade de trânsito, liberdade de associação e reunião. Com crescentes mobilizações em todos os territórios afetados pela convocação, a resolução foi unânime: uma grande mobilização indefinida em todo o país em rejeição de medidas econômicas e em defesa de territórios indígenas, rios, água, ermo, justiça rádios indígenas, educação intercultural, saúde, transporte e comunidade. 300 cortes de estradas simultâneos foram contados durante diferentes períodos do último sábado e domingo.

Paralelamente, o governo tentou combinar duas estratégias diferentes. Por um lado, a repressão se intensificou sob o argumento eufemístico do uso da força progressiva. Por outro lado, seus interlocutores buscaram desesperadamente o diálogo com os manifestantes, tentando estabelecer propostas de remuneração para os setores mobilizados (empréstimos produtivos a juros baixos, apoio à aquisição de máquinas agrícolas, reconhecimento das autoridades locais). Nada funcionou, e a liderança nacional de Conaie declarou publicamente que o diálogo com o regime está completamente fechado. "Não haverá reaproximação com nenhum representante do Estado até que o decreto que aumente o preço dos combustíveis seja revelado", disseram todos os porta-vozes de maneira homogênea.

O conflito se intensificou em toda a geografia nacional e as unidades militares e policiais foram retidas posteriormente em vários territórios indígenas que foram posteriormente entregues em troca da libertação não oficial de civis detidos. A Conaie, sob o princípio da autodeterminação dos territórios indígenas, também declarou seu estado de exceção e proibiu em suas comunidades a entrada de infiltrados e grupos armados pertencentes ao aparato de segurança do Estado.





google 


Descida da Serra


Segunda-feira amanheceu mais calma, e os porta-vozes do governo nacional foram à mídia para se felicitar. O número de detentos já adicionou mais de 320 naquele momento. Dos 300 cortes de estradas baixados para 50, o número de mobilizações em diferentes locais do país também diminuiu, o desemprego indígena e as mobilizações urbanas em diferentes partes do país aparentemente estavam em declínio. "A normalidade é gradualmente imposta", disse María Paula Romo, ministra do Interior, por ignorância.

No entanto, a versão indígena era radicalmente diferente. Segundo Jaime Vargas, presidente do CONAIE, "a repressão da força pública permitiu que o movimento se fortalecesse e se coordenasse com suas bases e outras organizações sociais em cada província para avançar em direção à capital".

Apenas algumas horas depois, as mensagens de aviso começaram na capital. A polícia nacional e o serviço de inteligência do Estado detetaram fortes movimentos nas estradas, desde as províncias indígenas da Serra Central até Quito. A reação não poderia ser mais infeliz: o ministro da Defesa, general do Exército em serviço passivo que responde ao nome de Oswaldo Jarrín, ameaçou diretamente os mobilizados:

“Não provoque a força pública, não a desafie ou saberemos como responder ... Essas declarações iluminaram ainda mais o clima dos mobilizados.

Durante todo o dia desta segunda-feira, 7 de outubro, vários contingentes de indígenas chegaram à capital equatoriana e surpreendentemente também a Guayaquil, a segunda cidade mais importante do país. Em vários bairros populares da periferia de Quito, os nativos foram recebidos com atos de solidariedade pela população local, apesar de uma forte campanha de descrédito e racismo posicionada por influenciadores conservadores nas redes sociais. Com as entradas para as cidades altamente protegidas pelas forças policiais - órgãos militares e de elite da polícia nacional -, os confrontos se seguiram por toda parte. Mais manifestantes presos, mais violência em meio aos inacreditáveis ​​apelos ao diálogo e até mesmo um navio-tanque policial ocasional foi incendiado durante brigas.

Diferentes pontos geográficos da capital equatoriana tornaram-se centros de conflito entre mobilizados e policiais. O presidente Moreno anunciou uma rede de televisão do governo que foi adiada três vezes e os jornalistas destinados a cobri-la foram despejados pelos militares do palácio presidencial de Carondelet. As mobilizações populares, tanto em Quito quanto em Guayaquil, foram combinadas com atos de vandalismo estrelando grupos organizados que se aproveitaram do protesto para fins delitivos.

Do mesmo modo, militantes políticos que respondem à tendência correspondente infiltraram-se nas mobilizações e realizaram assaltos a prédios públicos - como a Assembleia Nacional e a Controladoria Geral do Estado -, que foram censurados pelo CONAIE e outras organizações sociais. Em outras províncias, as instituições públicas ocupadas mobilizadas, como a Província ou o Conselho Judicial. As mobilizações foram permanentes nas províncias da Amazônia e na Serra Central, todas com forte ancestralidade indígena.

Às 21 horas de segunda-feira, a tão esperada cadeia nacional finalmente aconteceu. O presidente Lenín Moreno, guardado por seu vice-presidente à direita e seu ministro da Defesa à esquerda, junto com os chefes dos diferentes corpos militares por trás, disse - com algum nervosismo - que o povo equatoriano estava participando de uma tentativa de golpe ligada a um enredo internacional. "O tirano do Maduro ativou seu plano de desestabilização com Correa", disse o presidente equatoriano e insistiu que as medidas tomadas "não têm volta" e que "saques, vandalismo e violência mostram que existe uma intenção aqui". política organizada para desestabilizar o governo e quebrar a ordem constituída, quebrar a ordem democrática”.

Para surpresa dos equatorianos, a cadeia nacional foi transmitida a partir da cidade de Guayaquil, o que implica que o governo deixou o Palácio Carondelet na capital Quito. A estratégia política e comunicacional do governo Moreno, que tem uma credibilidade inferior a 16%, não poderia ser mais equivocada. Cercado pelas forças armadas, o presidente da república fez um chamado confuso ao diálogo em meio a sofismas, no qual reiterou que, sob nenhuma circunstância, o decreto 883 será revisado.

Com a situação no limite, as pessoas mobilizadas começaram a passar a noite em Quito em tendas localizadas em parques públicos, em universidades e coliseus locais de organizações sociais. Os setores sociais solidários com os mobilizados forneceram comida e cobertores aos recém-chegados, os estudantes de enfermagem atendidos ao jornalismo ferido e alternativo tentaram fazer uma cobertura consistente sobre o que e por que o mobilizado exigia. Manifestantes indígenas e estudantes universitários carregavam cartazes e faixas cujo slogan era "nem Correa, nem Moreno", buscando desmarcar a suposta capitalização política das mobilizações. A partir de então, as marchas foram protegidas por guardas indígenas improvisados, mas eficientes. Os infiltrados, membros da polícia secreta ou agentes do correísmo, foram violentamente expulsos das manifestações pelos próprios manifestantes. As ações de vandalismo diminuíram drasticamente.


Um país em transição


Em 10 de agosto, o Equador comemorou 40 anos de democracia. Nesse período, 11 concursos eleitorais foram desenvolvidos, três constituições foram aprovadas - 1978, 1998 e 2008 - e houve uma década de desestabilização política que começou com a queda de Abdalá Bucaram e durou até a chegada de Rafael Correa Poltrona presidencial do Palácio Carondelet.

A década correista estabilizou politicamente o país, embora tenha terminado com a notável decepção da maioria do povo equatoriano e desinstitucionalizou ainda mais o Equador, depois de implementar o domínio do poder executivo sobre os demais poderes do Estado. A última fase de deterioração econômica no país começou em 2014, quando a queda nos preços do petróleo começou a atingir fortemente a economia nacional. O orçamento geral do estado passou de US $ 44,3 bilhões em 2014 para 37,6 bilhões em 2016, e o endividamento público - interno e externo - aumentou de 2,8% do PIB em 2012 para 8,1% em 2016 e 9%. por cento em 2017.

A Conaie foi o motor da resistência da comunidade rural ao longo da década correista. O próprio Correa passou a defini-los como o principal inimigo da chamada Revolução Cidadã, um termo de propaganda com o qual definiu seu período de gestão. Apesar desse papel e tendo protagonizado episódios heroicos como a revolta de agosto de 2015 - fortemente reprimida pelo governo correista -, a CONAIE não levantou a cabeça em sua crise interna, iniciada há uma década e meia durante o curto período de gestão presidencial da O coronel Lucio Gutiérrez, quando decidiu apoiar o governo e ocupar portfólios ministeriais, abandonou seus princípios fundamentais.

No entanto, hoje o Equador está passando por um momento de renovação política emoldurado em um mapa de transições. Com o início dos atuais dias de luta, novos líderes substituíram os líderes históricos do movimento indígena que estavam politicamente exaustos. Nestes últimos dias, uma Conaie combativa e com forte capacidade de mobilização popular, apareceu.

O próprio governo de Moreno, inicialmente apresentado como a continuidade do correismo, definiu-se como um governo de transição, movendo-se em direção a posições neoliberais e entreguistas em relação aos FFMI. Mesmo dentro do governo Moreno, uma transição pode ser vista com a formação de novas figuras políticas que em breve renovarão a expiração da direita equatoriana. Personagens como o vice-presidente da república, Otto Sonnenholzner, o secretário da presidência, Juan Sebastián Roldán, ou o ministro da Economia e Finanças, Richard Martínez, fazem parte dessa regeneração na frente conservadora, em detrimento das lideranças mais clássicas.

Mas agora, e na quinta-feira, 3 de outubro, tudo pode acontecer. O governo ainda está procurando desesperadamente canais de diálogo com o movimento indígena, Lenín Moreno retorna a Quito após fortes críticas de todos os lados depois de se refugiar em Guayaquil, e nas ruas mais de 20 mil indígenas acompanhados pelo tecido de solidariedade social de Quito tomaram o centro da capital