terça-feira, 30 de julho de 2024

educação, memórias e a era digital

Olhando este blog que comecei em 2010, quando ainda dava aulas, minha intenção era ajudar os alunos, que na época tinham pouco contato e habilidade com atividades em modo EAD, a se organizarem para realizar algumas atividades de estudo online. Foi uma forma que encontrei de aprofundar os conteúdos de sociologia, que naquela época só tinha uma ou duas aulas por semana, dependendo da série do ensino médio.

Mal sabia o que viria. Hoje, a sociologia está ainda mais desvalorizada e, ao mesmo tempo, tudo se faz pela internet, e pouco se faz em sala de aula, até pela precariedade existente.

O fato é que estava reparando que nos anos de 2014 e 2015 não postei absolutamente nada aqui, o que é muito compreensível, visto que esses foram os anos mais difíceis para mim. Tive que conviver com a ausência dos meus pais e, ao mesmo tempo, me organizar em outro lugar. Foi como se a minha história até aquele ano tivesse acabado.

Junto com meu irmão, saímos de casa e tivemos que doar grande parte das coisas do meu pai e da minha mãe. Tomei a consciência da finitude de uma maneira muito brutal, onde tudo acaba e ficam somente as memórias, essas que muitas vezes representam um hiato na nossa história.

Tendo consciência da finitude, passei a colocar aqui mesmo textos inacabados, e o blog foi tomando outro sentido, para além da educação. E não tem problema, sempre pode ser útil a alguém. Não sei...nos últimos meses me dei conta que tudo pode acabar a qualquer momento e escrever também é uma forma de deixar algo, ainda que seja uma reflexão. 

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Sete breves lições de física: uma reflexão da periferia


Este texto é parte de uma dívida grandiosa que tenho com meus amigos, uma vez que somos parte daquilo que nos rodeia. Resolvi redigi-lo a partir da proximidade e do agradecimento que tenho a duas pessoas muito especiais. Dete, amiga de infância, na época do pré-vestibular, me recordo como se fosse hoje. Ela não sabia bem o que fazer, já que trabalhávamos, e fazer uma faculdade nunca foi uma questão a ser pensada com a seriedade devida. Estudou, tornou-se física nuclear, um orgulho para mim. Mulher, periférica e física, isso não é pouca coisa. No meu entender, a partir das nossas dificuldades concretas da periferia em sua luta pelos estudos, valoro-a como se fosse o Einstein do nosso bairro. Dete gostava dos números, era muito ágil, pensamentos rápidos, diferentes de mim, que demorava porque estava sempre questionando os porquês.

A outra amiga fundamental desta escrita é Aline Leme, amiga do bairro, do lugar periférico, com os mesmos vícios que nos atravessam na Cidade São Jorge. Falamos hoje ainda do nosso cansaço generalizado por termos construído um caminho em meio a tantas pedras. Hoje as coisas parecem mais fáceis e tudo parece mais próximo; naquela época, tudo parecia muito distante. Estudar era algo como luz no final do túnel. Aline estudou na Universidade Pública mais elitista de São Paulo, um esforço hercúleo desde a distância até a sua permanência de pertencimento no lugar que nunca foi nosso. Ela é a pessoa mais apaixonada pelas fórmulas que conheço. Como poucos, consegue sonhar por meio de números e transformar sua paixão em aulas de matemática que são espetáculos, como merece o nosso povo. Ela é matemática, mas para mim compara-se a Max Planck, o físico, um pilar na física do século XX. Planck, ao calcular o campo elétrico no interior de uma caixa quente, destoou de tudo que se conhecia na época, quando a energia era tratada de maneira contínua. Estranhavam a visão de Planck na concepção da energia como pequenos tijolos (Rovelli, 2016:20).

Aline é como Planck, alguém que destoa do seu pequeno mundo, entretanto, quer crescer. É Einstein que vai, cinco anos depois da hipótese de Planck, comprovar os "pacotes de energia", escrevendo que a energia de um raio de luz não se distribui de maneira contínua no espaço, mas consiste em um número finito de "quanta" de energia que se movem, não se dividem e são produzidos e absorvidos como unidades singulares (Rovelli, 2016, 21). Na mecânica quântica, nenhuma partícula tem uma posição definida, a não ser quando colide com algo. Quando acontece a colisão, não é possível prever seus saltos, que são ao acaso; há probabilidades, mas não uma certeza, e a incerteza está no coração da física (Rovelli, 2016: 24). Para nós, faz muito sentido transpor as incertezas da física e a nossa colisão com o mundo que vivíamos e que vivemos. Nos rebelamos desde cedo, ainda o fazemos, e somos improváveis em nossos caminhos. Recorremos à coragem de ocupar o não ocupado, de pensar o não pensado, e de voltar ao nosso estatuto, sempre com o orgulho devoluto ao nosso povo.

São estes dois pilares, Aline e Dete, que me colocaram no caminho dos números e das Ciências Naturais. Como socióloga, sempre gostei, mas pude ir além, nos sonhos atravessados das amigas de infância, ir buscar as fórmulas, suas deduções, enquanto alguns estranham até hoje minha paixão pela física. Parte deste amor agora se explica. Somos seres sociais; são os amigos que nos talham e a ciência nos revela como compreender melhor o mundo, indicando a imensidão que ainda desconhecemos. O conhecimento é nossa busca insana, capaz de nos dar outras possibilidades de mundo e de vida... À medida que nosso conhecimento cresceu, fomos aprendendo cada vez mais esta noção de sermos parte, e pequena parte, do universo (Rovelli, 2016). Segundo os grandes físicos, o presente é algo que escoa, ele não é comum a todos. Então, registrar é um ato de existência. Até o fim, o desejo de entender sempre mais... (Rovelli, 2016).

Posto isto, resolvi ler "Sete Breves Lições de Física" como uma tentativa de buscar livros acessíveis para os alunos, os jovens, aqueles também apaixonados pelos números, mas que encontram poucos referenciais. O livro é ótimo, didático, e adentra conosco lentamente a conhecer as dúvidas entre os cientistas mais renomados do seu tempo, entre o pensar e o agir, alguns encarados inicialmente como tolos e que muitas vezes tiveram que retroceder e recuar em seu ideário inicial. 

O pensamento científico é nutrido pela capacidade de ver além, "diferente", e não simplesmente pela mera reprodução do mesmo, como uma fotografia que revela o instantâneo, mas sim pela percepção do que não é visível na imediaticidade, aquilo que não aparece aos olhares pouco sensíveis. A contradição entre Einstein e Planck são as duas vozes infindas do século XX; a relatividade geral e a mecânica quântica são duas formas diferentes de ver o universo. O mundo é um espaço curvo onde tudo é contínuo; o mundo é um espaço plano onde pululam "quantas" de energia, e a ciência se torna cada vez mais majestosa porque se encontra frente a dois conceitos geniais, e se pode pensar a partir dos caminhos já traçados e abandonados, esforçando-se para reunir a inspiração enquanto ainda existe bruma, e podemos interagir com todas estas variáveis para pensar o novo (Rovelli, 2016:50). Nós, na periferia, somos como elétrons em nossos lugares; às vezes saltamos e nos transformamos em átomos, deixando um legado para que outros nos sigam.





sexta-feira, 21 de junho de 2024

sobre a solidão e a desilusão


Nos dias em que queremos ficar sozinhas, uma zona cinza nos arrasta para todo tipo de pensamento ruim. As palavras se confundem, os pensamentos não se concretizam e, quando o fazem, é sempre para a desistência. Besteira para alguns, desânimo para outros. Talvez seja melhor não explicar e evitar a fadiga de ter que organizar o que não é possível. E quando tentamos escapar, ainda que no pensamento, fecha-se um ciclo entre tristeza, frustração, auto-ódio e desistência.

No auto-ódio, me questiono sobre minhas escolhas. Poderia tudo estar e ser diferente — poderia? Já não sei, parece-me que não, quando tudo está cerrado.

Lembro quando jovem gostava de ler Thomas Mann. Passava horas me encontrando naquela literatura triste de contos que falavam da desilusão: “Sabe, meu caro senhor, o que é a desilusão?”, perguntou, num tom baixo e apressado, agarrando a bengala com ambas as mãos. “Não o mau êxito em pequenos assuntos insignificantes, mas a desilusão grande, geral, que engloba tudo, tudo o que faz parte da vida? Não, claro, não sabe. Mas eu tenho sido acompanhado por ela desde a juventude; ela tornou-me solitário, infeliz e, não o nego, um pouco excêntrico.” Ele conseguia escrever o modo como eu me sentia e ainda me sinto.

Em tempos ainda mais difíceis, escrever sempre ajudava. Nas frases soltas, encontrava alguma linearidade, algum sentido naqueles pensamentos confusos. A terapia me ajudava a tentar buscar a causa, ao invés de inventar mentalmente outras causas. O que efetivamente estaria me incomodando? Como mudar? Algumas vezes encontrei uma resposta, em outras tentei e tentei. Daí os dias passaram, e aquilo que parecia uma nuvem cinza foi sendo levada pela brisa dos dias.
Algumas vezes escrevi de forma aleatória e pensava: o tempo vai passar, um dia vou ler isto e perceber que efetivamente não estava bem. Porém, acabei perdendo tudo, e aquilo se tornou uma memória que agora já nem sei se efetivamente vivi.

Estar longe tem suas questões, mas não me refiro a longe do país, mas sim da realidade. Poucos entenderiam o que realmente isto significa. Em todo caso, também não me interessa explicar; as pessoas não nos veem no que somos verdadeiramente. Em tempos de redes sociais, isso fica efetivamente pior. Tudo está sempre no âmbito da aparência. É tudo mentira. Eu mesma não acredito em nada. Custa acreditar que a maioria vive aquela felicidade que propagam. Se efetivamente vivessem isso, bastaria. Não seria necessário mostrar, como se precisassem — e, de fato, precisam — da validação de outros.

Daí tento recordar qualquer coisa positiva do antes. Qual antes? Antes da consciência de que sou uma pessoa tristemente doente. Um dia desses me perguntaram sobre a distância e o quanto isto poderia levar à tristeza. Não acho que seja bem assim. Há tempos aprendi a estar sozinha, experimentando o abismo de distâncias em todos os níveis, seja por conta do distanciamento, da não identificação, da ausência de partilha de histórias em comuns, da ausência de aproximação de um mundo comum. Alguns elos frágeis me unem a outras pessoas. São ligações como teias de aranha que podem se desfazer a qualquer momento. E foi assim que experimentei a solidão.



terça-feira, 18 de junho de 2024

a necessidade de esperança e a luta por mudanças na América Latina


Quando lembramos do enterro de Getúlio Vargas, aquela multidão de pessoas querendo tocar no caixão (sim, temos história e ela segue se repetindo como tragédia/farsa), entendemos parte da necessidade de ter esperança em algo que altere minimamente nossa vida pautada no trabalho e no presentismo.

Aqui, não estou discutindo as políticas do “Getulismo” — podemos fazer isso em outro momento — mas sim o que essas lideranças representam para o povo. Meus pais, por exemplo, chamavam Vargas de "pai dos pobres". Isto não é uma especificidade nossa; todos os países da América Latina tiveram o seu "salvador".

A figura do salvador na América Latina reflete nossa dependência econômica, a forma como sofremos na sobrevivência, e a necessidade de ter um "alento". E SIM, eu estou comemorando também — ninguém vai tirar isso de mim. Porém, é importante lembrar que, historicamente, todas as figuras personificadas na liderança vieram como tentativas de criar consenso, ou seja, abafar o grito desesperado de um povo em crise que poderia ser sujeito, mas que, sem forças, coloca em alguém (outro) seus anseios.

Vargas no Brasil e Perón na Argentina, por exemplo, implementaram uma série de regulamentações trabalhistas como mecanismos de contenção dos trabalhadores. Essas regulamentações obviamente ajudaram o trabalhador, mas acabaram por abafar suas lutas, dando como vitória somente a legislação. O chamado progressismo da última década também surge nesse ideário. A população, descontente com as reformas neoliberais impostas, segue sofrendo e busca uma alternativa desesperada. Assim, muitos governos ditos de esquerda ganham as eleições em vários países.

Todos esses governos implementaram políticas voltadas à transferência de renda às famílias, com base nos objetivos de desenvolvimento do Milênio e no cumprimento de uma das sanções da Organização das Nações Unidas iniciada no ano de 2000, para erradicação da pobreza como item prioritário. SIM! Importa diminuir a pobreza, porém precisamos avançar na questão central, que não é apenas redistribuição de renda, mas sim, o que gera a vergonhosa pobreza.

Nenhum dos governos progressistas na América Latina, respeitada a importância de suas reformas, conseguiu qualquer controle ou reversão do capital financeiro, principalmente sob a égide da marcha célere imperial hegemônica. Ao contrário, fomos parceiros na nossa condição de subalternidade, na nossa posição mais ou menos crítica, mais ou menos de esquerda. Sabemos que a história não dá passos atrás — "el pasado no volverá". Só para dizer que precisamos criar um estatuto nacional autêntico.

Este pequeno texto abre espaço para uma série de outras reflexões, mas não podemos abandonar a luta por um novo ser humano, na sociedade que queremos e que deixaremos. Entender a especificidade da situação latino-americana e os nossos problemas não é uma tarefa simples. E me recuso a acreditar que estamos condenados. Quando as cortinas se levantam, percebemos como os fios da trama estavam sendo tecidos. Aproveitemos este momento. O que definirá as mudanças é nosso amadurecimento daqui para frente. 

Perdoem a vulgarização dos conceitos.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Dona Finota: a vida e legado

Ivone Teixeira dos Santos, a “Dona Finota”

Minha avó, uma mulher serena.

A iniciativa de escrever sobre minha avó Ivone foi para mim um desafio, afinal tivemos muitos momentos juntas e depois nos separamos drasticamente. Contar a nossa história pessoal, ainda mais quando nos acostumamos a nunca pensar sobre isso, é também recuperar nosso histórico no passado, um pouco de nós que ficou naquele tempo de convivência. 

Uma das minhas avós, Ivone, ou Dona Finota, como ficou conhecida, será a pessoa que resolvi relatar, ampliar esta experiência e fazer desta mulher que passou a vida à sombra, uma mulher histórica. Dona Ivone foi uma mulher racializada, que criou sete filhos e viu alguns deles falecer antes de si. Esta não é uma história inventada; quem inventa é a vida, parafraseando Gabriel García Márquez. Viver é algo bastante notável, há que se pensar sobre a vida, e tudo que a compõe é digno de registro, simplesmente porque nos diz respeito. Assim sendo, Dona Ivone, uma mulher descendente de indígenas e africanos, teve uma história apagada pela violência colonizadora da formação brasileira. Contudo, este texto dará dignidade a esta vida. 

Dona Finota era uma avó muito afável; morei com ela até os 19 anos, quando meu pai, por rompimentos familiares, resolveu se afastar. Num Brasil com passado escravocrata, sei pouco sobre seus antepassados, mas quando vivemos juntas, ela era a avó religiosa que acordava às 6 da manhã para fazer suas orações e sempre foi muito querida comigo e com meus irmãos. Recordo-me de alguns dos seus trejeitos: ela nos enchia de coisas para comer e depois reclamava que havíamos comido tudo, numa reclamação estendida a todos da família. Em sua vida, ficou conhecida como a esposa do Salvador dos Santos, meu avô, já que ela sempre esteve ao seu lado nas lutas comunistas que meu avô travou e que deixou marcas em todos que o conheceram. Como consta no artigo publicado no Jornal Andreense Diário do Grande ABC
"Dona Finota (apelido carinhoso de Dona Ivone, dos tempos de Minas), mulher de Salvador, acompanhou-o e o apoiou em todas as atividades desde o nascimento. A matriarca faleceu em Santo André em 30 de abril de 1966." (1)

Contudo, o jornal cometeu dois erros. O primeiro foi que ela não era apenas a esposa do meu avô; ela foi uma mulher que sobreviveu nesta sociedade. Em tempo, foi chamada de louca; quiçá havia mesmo enlouquecido com seu próprio silenciamento forçado. O segundo erro foi o ano de sua morte; ela viveu muitos anos mais, morrendo em 22/02/2009. Viveu para ver o hospital carregar o nome de uma das filhas em sua luta feminista. Na nota do seu falecimento, o jornal noticiou que Santo André perdia uma filha querida.


Dona Ivone era viúva de Salvador dos Santos, pioneiro da Vila Humaitá, participante ativo da igreja do bairro, do clube, da sociedade amigos e nome do centro recreativo e assistencial do bairro. O casal teve sete filhos: Maria José (nome do Hospital da Mulher), Josefina, Lurdes, Joaquim (ex-vereador e presidente da Câmara Municipal, editor do Almanaque de Vereadores, 1ª edição), Salvador Filho (bibliotecário e agente cultural), José e Ana Aparecida. Dona Ivone era natural de Campo Belo, em Minas Gerais, nascida em 8 de junho de 1923. Faleceu quinta-feira e foi sepultada sexta-feira no cemitério de Vila Pires. (2)

Nunca imaginei que a convivência com minha avó me marcaria de forma tão singular. Foi a partir da compreensão de sua experiência que compreendi toda uma linha racial marcada nesta família, e salta aos olhos o seu constante apagamento, que com este intento textual, pretendo reverter. 

Ao conversar com as primas mais velhas e perceber que muitas tinham poucas memórias da avó Finota, apenas lembranças de broncas e possíveis preferências entre um neto e outro, me dei conta de que vivi muito com minha avó. Nós dormíamos no mesmo quarto, ela me esperava da escola às 11 da noite, já que eu estudava no período noturno. O fato de eu não ter conhecido meu avô, que se tornou uma figura pública, me fez ver a valia daquela mulher que, mesmo em morte, apareceu como esposa. Ela foi uma mulher importante no seio de uma família politizada, suportou a dureza de conviver com uma maioria em que a racionalidade só opera por meio de discussões, e, por vezes, secundarizando a importância do afeto como uma transformação radical nos valores desta sociedade.

A morte de minha avó, mulher racializada, e do meu pai, seu filho, fez de mim um ser outro... 

Quando olho para suas histórias, vejo o que posso fazer e ser de diferente...

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

a escrita e a reconexão


Sempre gostei de escrever. Lembro-me quando tinha sete anos, escrevi uma redação sobre o Natal. Não sei o que escrevi, mas lembro daquilo ter chamado tanta atenção dos professores que minha mãe foi chamada na escola para ser elogiada e não só, para estimular a leitura e a escrita em mim.

Não sei se por isso, ainda aos sete anos, ganhei um diário do meu pai. Ele trabalhava na fábrica Mercedes e voltava para casa de ônibus. Então, quando saiu do trabalho, desceu no centro da cidade e comprou aquele diário. O diário tinha um cadeado dourado com figurinhas e desenhos em uma capa azul, e ali eu escrevia e escrevia coisas da vida e da rotina na escola, como faço agora. O cadeado representava o “segredo”, a escrita pessoal que ninguém deveria acessar além de mim. Gosto de pensar que me respeitaram e que ainda aos sete anos eu poderia ter uma história que quisesse relatar, uma história infantil, mas que fosse minha.

E assim seguiu, todo ano ganhava um novo diário e fui escrevendo e escrevendo até os 14 anos. Guardei todos esses diários e pretendia lê-los neste momento, passados tantos anos e após o falecimento dos meus pais. Talvez uma tentativa de me reconectar com o que eu fui e que já não reconheço. Nos últimos anos, tive um hiato. Às vezes, me lembro de coisas e pergunto se elas realmente aconteceram. Acho que minha memória me engana. Daí me pergunto, afinal, o que foi minha vida, qual o sentido dela? Já li algumas vezes que o trauma subverte o registro da memória, com base nesta evidência individual posso dizer que talvez seja verdade. E por vezes percebo que sem meus pais fiquei sozinha, que tais perguntas sequer fazem sentido agora. Isto porque as nossas conversas eram sempre profundas, mesmo no raso que é o cotidiano.

Basta pensar! Só pessoas com tamanha sensibilidade estimulariam a escrita em mim ainda na infância. Porém, isso também foi parte da história deles. Nos últimos meses, encontrei um caderno dos meus pais. No caderno vi que ambos trocavam mensagens ao sair de casa, isto porque não se encontravam entre seus trabalhos, então era a forma que tinham de dividir a vida. Uma espécie de WhatsApp daquele período, muito menos volátil, ninguém apagava as mensagens, ninguém bloqueava um ao outro, a vida era mais crua e o enfrentamento das chateações das rotinas não era deletável.

Lendo suas mensagens, é interessante perceber o modo como viveram, eram muito especiais em suas pequenezas. O suco de abacate era anotado, meu pai adorava, isto também permaneceu em mim. Eu gosto de revisitar tudo, gosto de ter contato com a saudade e a dor de perceber que eles já não existem, e ter acesso àquela memória que construí com eles, compartilhada, está guardada apenas em mim. Muito privilégio o meu!

Escrever hoje me faz resgatar o que sou e o que fui antes, antes do trauma, e aos poucos ir relembrando as pequenas histórias e tentando encontrar pessoas que tenham também experienciado estas memórias. As fotos me ajudam, felizmente estas eu não perdi, os diários se foram com as mudanças em meio ao luto. Fico triste por não conseguir me rever e por isso também escrevo como forma de dar uma organização aos pensamentos.

Olhando meu entorno e vendo como sempre tive que enfrentar o REAL no seu pior e no seu melhor, percebo o porquê me incomoda tanto o falseamento da realidade. Eu quero saber o que se passa, quero viver efetiva e integralmente a alegria e a tristeza porque sei que só através destas contradições intensas conseguimos amadurecer, dar valor ao que de fato importa e é especial na vida e por isto também escrevo.

Tal como meus pais, eu quero ler, quero saber e me reencontrar e é daí que vem o registro; ele nos mostra como nos construímos e onde e com quem queremos estar. Por isso não me escondo do mundo, porque a vida está aí para todos e por mais clichê que pareça, teremos que enfrentar. E foi por meio dos registros deles que também descobri outros pais que eram confidentes entre si e que bom que puderam partilhar isto juntos.

O caderno foi um presente ao meu pai da empresa Bardella Indústria Mecânicas e é de 1964, ano do golpe, o relato na imagem é de 1976.







segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

O cordão partido

O cordão partido pode ser novamente atado

Ele segura novamente, mas
Está roto.

Talvez nos encontremos de novo, mas
Ali onde você me deixou
Não me achará novamente.

Bertold Brecht

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Para o novo ano que se aproxima

Estamos perplexos, caminhamos sobre dúvidas e nos deitamos ásperos. O tempo se comprime, vivemos como se repetíssemos o dia anterior e o antepassado, falta-nos o ar e decidimos não mais caminhar ao léu. Não mais sonhamos com viagens, falta-nos dinheiro, falta-nos vontade, falta-nos a ilusão de que amanhã respiraremos fundo e o ar novamente nos será leve. Falta-nos amigos, embora tenhamos tantos conhecidos. Mas não abandonamos a ideia de construirmos diariamente uma nova casa. Labuta sobre labuta, uma após a outra, tecemos a teia que desvenda o incógnito e afasta o falso.

Abolimos o temor e ousamos dar nome às coisas. Nenhuma autoridade nos controla ou dita o rumo dos nossos pensamentos e atos, a não ser nós próprios. A isso se diz ser consciente, fardo ingrato. Pode parecer pintado em obscuro, ser evanescente, é, porém, da cor dos nossos passos. Vivemos o trânsito ao imponderável, terrível saber nosso destino repousar em mãos alheias. Não há como furtar-se a este fato. Viver é uma aventura, a atenção nunca repousa. É assim que se atravessa tempos símiles, outros já houveram em nossa milenar paixão terrena. Nossos ancestrais se afadigaram em longas e incertas travessias e nos legaram este mundo devassado, complexo, impreciso. 

Levantemos, pois, as taças rubras do sangue da terra, bebamos o vinho que nos irmana e, juntos, prossigamos nossa jornada lenta, lentíssima e incerta, mesmo sabendo estarmos à beira do colapso, meio perdidos nas brenhas do acaso. O que importa é estarmos juntos e jamais trilhar o caminho dos penhascos. Juntos novamente chegaremos a um novo mundo.


Por Paulo Lima

São Paulo, 24 de dezembro de 2023


quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Desvendando o Balão Mágico: entre nostalgia, influência e reflexões geracionais

Eu não assisti ao documentário "A super fantástica história do balão" que conta a história do grupo musical infantil formado em 1982 Balão Mágico.

Não assisti ao documentário, infelizmente, porque não tenho acesso a todos os aplicativos que disponibilizam séries, filmes e documentários. No entanto, como parte de uma geração que se educou através da televisão na década de 90, movida pela curiosidade e pelo fato de já ter tido contato com as músicas do grupo infantil quando eles já eram adolescentes, fiquei curiosa e decidi procurar vídeos e artigos que discutissem o documentário.

Confesso que fiquei surpresa ao descobrir que um dos discos do Balão Mágico, mais especificamente o quarto álbum, trazia um brinde que consistia em um cheque de Cr$5 mil, incentivando as crianças a abrirem ou pensarem em abrir uma poupança na Caixa Econômica Federal, em 1985. Passei alguns minutos ponderando sobre a influência desse fato, algo que até então nunca havia pensado.


Fonte: wikipedia


Lembro que na época um tio meu acabou por abrir uma poupança para meu irmão, que ainda criança sequer pensava nisso, mas alguém tinha que cuidar do futuro dessa geração. Uma geração que agora, talvez, com o término dos anos ditatoriais, poderia finalmente vislumbrar um futuro.

Para o meu tio, um homem que vivenciou o período ditatorial e suas perseguições, a mensagem musical de um mundo colorido e incrível do Balão Mágico talvez fizesse mais sentido e trouxesse mais esperança do que para nós, crianças que crescemos entre a escassez e a expansão da produção industrial após os anos 90. Nesse sentido, discordo da visão apresentada por Huyssen (2004), que sugere que ao revivermos a memória afetiva através da televisão, retornamos a um local seguro da infância onde as preocupações da vida adulta não existiam. Isso não se aplicava a nós, pois de alguma forma já tínhamos que enfrentar as dificuldades da vida adulta, mesmo sendo ainda crianças, especialmente em meio à crise e à inflação daquela época. A memória da escassez ainda permanece em mim e posso dizer que moldou a minha forma de socialização. Por outro lado, reconheço que meu exemplo individual, embora tenha representatividade social, é apenas um caso que, do ponto de vista científico, poderíamos classificar como uma "evidência anedótica" interessante para reflexão, mas que não constitui um método e que nem é o objetivo deste texto.

Eu era praticamente um bebê naquela época e, portanto, não tenho lembrança desses acontecimentos. No entanto, achei interessante a reflexão feita pelo PH Santos, um youtuber que analisa séries, filmes e documentários e que comenta esta transposição histórica entre o mundo sombrio da ditadura o mundo colorido do Balão Mágico e de uma geração que agora poderia vislumbrar um horizonte.

De fato, naquele momento, estávamos emergindo da ditadura e havia a necessidade de construir um imaginário infantil para aquela geração, que seria o futuro de um Brasil que, embora não plenamente democrático, começava a mostrar indícios de... uma democracia restringida, para citar o Cueva. Isso era especialmente verdadeiro onde eu vivia, na periferia, onde a democracia era, e continua sendo, algo a ser construído no dia a dia.

Voltando ao Balão Mágico, aparentemente, a ideia de criar um grupo infantil surgiu como algo externo ou estrangeiro, que estava fazendo sucesso entre as crianças em outros lugares. E o seu retorno através de documentários neste momento também se relaciona com uma estratégia de engajar um público online, como foi bem discutido por Lessa & Junior (s.d.). Algo que voltarei a discutir em um próximo texto...

Elaine Santos

Referências

Huyssen, A., Moreira, S. V., & de Carvalho Moreno, C. A. (2004). Mídia e discursos da memória. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, 27(1).

Lessa, L. A., & Júnior, M. A. B. O retorno do Balão Mágico e a evocação de memórias na TV: um estudo sobre teleafetividade.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Retratos de um Tempo: heranças operárias e reflexões no ABC Paulista


Ontem, meu primo, vivendo a tristeza do seu luto e das mudanças que a vida tristemente impõe, me enviou esta foto. Nela, podemos ver meu pai (in memoriam) e minha tia, que faleceu recentemente. Mesmo eu ainda não tendo nascido quando este retrato foi feito, conheço as histórias que envolvem esta foto e muitas outras. 




Meu pai e minha tia eram amigos. Foi minha tia que apresentou meu pai à minha mãe. Todos trabalharam juntos em uma fábrica no ABC e depois meus pais casaram-se e essas pessoas continuaram sendo amigas ao longo do tempo... 

Eu acho incrível como as fotos antigas, diferentemente das fotos atuais, sempre parecem nos remeter a uma história muito mais ampla. Ou talvez seja eu querendo contrariar a realidade atual, onde o "EU" prevalece sobre qualquer outra coisa, e esteja querendo ver na foto o histórico existente naquele período. A exemplo das teorias, ninguém mais discute a teoria em si, mas sim o "EU" na teoria... e tudo se esvai porque já não existe um sentido social e coletivo do teórico, mas o sentido individual de análise que é o que parece importar em tudo. 

Numa espécie de movimento contrário, deixo de olhar o "EU" para observar o entorno que esta foto poderia me oferecer... O que estariam eles pensando? Quem fez esta foto? Quais eram seus sonhos em um estado de São Paulo já industrializado no ABC, onde nasci? Quase todos os que viveram naquele período possuem alguma relação com as fábricas. 

E é por isso que meu pai, minha tia e seus amigos possuem um aspecto de estudantes e jovens trabalhadores...uma história comum naquele contexto e com um comportamento específico que caracteriza o sentido de suas vidas, como pertencentes a uma classe e imprimindo as atividades que exerciam. 

Sem esquecer de mim, porque, obviamente, mesmo sendo produtos sociais, também existimos individualmente... Quando olho esses olhos ainda em uma foto em preto e branco, também me vejo um pouco neles. E é isso que nos dói no momento de luto: a gente perde aquele olhar que parece ser a única coisa verdadeira nesse mundo recheado de mentiras e falsas aparências... O fato é que, ao olhar a foto, me vejo nessas pessoas e sei que suas formas de ser e viver reproduziram em nós, do ABC Paulista, efeitos sociais, simbólicos, afetivos e econômicos das suas relações subjetivas com a condição operária, e esta foi a maior herança material que recebemos: o olhar sobre o mundo pelo viés do trabalho, da repetição e da organização dos muitos iguais. 

Lembro do meu pai ter ficado feliz quando o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) passou a admitir garotas, porque agora a filha dele, que ele considerava muito inteligente, poderia seguir seu caminho e se tornar também metalúrgica, pois ali havia um ônibus que levava e buscava, o salário era bom e pago corretamente... lá a gente tem direitos! (dizia ele). Nunca consegui concretizar esse sonho do meu pai, até porque essa realidade já não existe. O nosso referencial de sucesso não era externo, mas estava baseado na realidade e somente na realidade, ou seja, aquilo que saciaria, de forma simples, as nossas necessidades básicas. 

Eu gosto da análise sociológica que diz que normalmente os pais desejam que seus filhos alcancem posições sociais melhores do que as suas. Entre os chamados "operários", essa herança pouco ascendente não era necessariamente um problema; ao contrário, a aceitação dessa continuidade era motivo de orgulho. 

Os metalúrgicos do ABC daquela época são muito orgulhosos de si e de sua história, e por isso o estudo profissional era o nosso caminho... e é também por isso que até hoje sei usar um paquímetro, graças aos ensinamentos da minha mãe. Porque isto era tudo que precisávamos na vida, conhecer profundamente os nossos futuros instrumentos de trabalho e ser consciente da nossa condição no mundo... a consciência da repetição, do anonimato individual na esfera pública, do aparecer nos livros de história sendo só coletivo (Os metalúrgicos do ABC) da submissão e da resistência…e foi assim que seguimos.

Elaine Santos