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quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Quando se aprende muito cedo a abrir as asas da alma

 

Hoje faz nove anos que ela se foi. 
Ainda lembro de tudo, naquela sequência de dias tristes que me levaram a encontrar o mais profundo sentimento de perda. 
Eu já estava psiquicamente debilitada por ter perdido meu pai meses antes. 
É estranho perder os pais tão jovem e em tão curto espaço de tempo. 
Parece que a vida está a nos perseguir. Mas, depois, lembramos que há muito sofrimento no mundo, e que o nosso não é o único. Ainda assim, nosso sentimento egoísta insiste em acreditar que a dor que carregamos é maior, ou mais única.

Sempre penso em algo que aprendi com a Isildinha nesses anos:  "Olha sempre para o lado, olha para baixo, e perceba que há muito mais além de nós neste mundo."  

Voltando àquele dia…
lembro que foram incontáveis horas de tristeza contínua e distante. 
Mesmo agora, nove anos depois, tento sempre reprimir o choro para seguir e até para escrever.
Aliás, minha mãe sempre dizia: "Quem chora muito envelhece rápido."

Naquele dia, porém, não consegui reprimir o choro. Mas ele demorou a vir. Acho que fiquei em choque por alguns minutos.
Lembro de estar em um café e de ter que sair abruptamente, para a certa confusão da pessoa que me atendia.  Como pode alguém pedir um café, pagar, não tomá-lo e ir embora sozinha, apressada, como se tivesse recebido uma notícia ruim?  

Sem deixar que ela me alcançasse, fui embora. 
Pensei que ela seria incapaz de me entender e posso ter me enganado, às vezes o apoio vem de onde menos esperamos.

Com medo, me escondi em casa, sozinha. 
Mandei uma mensagem para o Bruno, que estava na aula. 
Não sei por que não fui à aula. Talvez porque já não aguentava o peso daqueles últimos dias. Meu corpo dava sinais disso: alergias inexplicáveis, médicos receitando calmantes, enxergando um sintoma, mas não a dor.  Coisas que também aprendi com o sofrimento, o corpo sempre dá alguns sinais. 

Foram dias longos.
O Bruno se assustou com minha mensagem e veio logo.
Mas ele também não sabia bem como agir.  

O Bruno, meu grande amigo, sempre viveu protegido da vida.
Cresceu numa bolha segura, sem contato com os extremos da existência, fossem eles na euforia ou no luto.
Sorte a dele…
Viveu num certo equilíbrio, até que, depois, começou a descobrir seu verdadeiro eu.  Mas essa história bonita, que ele está a tentar construir, ainda precisa ser contada. Talvez um dia eu a escreva, se ele me permitir.  

De todo modo, foi ele que esteve ao meu lado naquele momento, junto com a amiga Paula.  

A ela, devo muito. Não uma dívida financeira ou uma obrigação.
Mas algo mais profundo: uma dívida de encontros humanos.
Daqueles que nos fazem lembrar que ainda há beleza e humanidade entre as pessoas.

Sentimentos que ultrapassam as pequenezas do cotidiano.  

Isso, hoje, é raro. 
Andando pelas ruas hoje, observo as pessoas.
Sempre penso que, a cada dia, suportamos menos, ouvimos menos.
Todos querem apenas falar, e falam tanto que nem percebem, sequer enxergam os outros.  

O egoísmo exacerbado, como dizia a Izildinha. Sábia, alguém que sabe viver e viver bem.  

Foram Bruno e Paula que me acolheram de imediato.
Aos poucos, outros amigos apareceram.
Não todos, claro.
É assim que funciona.
Quando sofremos, as pessoas se afastam.
É natural. Ninguém quer contato com a dor.
É mais fácil fingir, viver na ilusão de uma alegria constante.

Bruno hoje sabe bem disso. 
Às vezes, a vida dá reviravoltas muito grandes, e aprendemos a respeitá-la.
A viver com cautela. Nunca sabemos o que virá.  

Este texto está confuso, eu sei.
Mas é sempre assim quando escrevo sobre esse período. 
Como sempre digo, o trauma cria um hiato na memória.
E, ao escrever, tento organizar esse vazio.

Naquele momento minha consciência ficou desprotegida, e então deixei de conseguir produzir significado para o que vivi e para o para o que viveria anos depois, me tornei distímica.  

Até hoje, tento reconstruí-lo. Produzir sentido para o que deixou de ter.  

No choque ou sofremos, ou assimilamos. Não é possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Talvez por isso, tudo ainda pareça tão real. 

Parece que todos os anos preciso voltar àquele dia, reorganizá-lo.  

Naquele 13 de novembro, me escondi.
Aos poucos, fui saindo.
Não foi fácil. Demorou anos.  

Alguns talvez não entendam o que foi isso.
Tudo bem. Não os condeno.
É sempre mais fácil lidar com a superfície. O profundo dói demais.

Mas ainda existia vida dentro de mim.
Fui capaz de agradecer ao médico que, com dignidade, continuou cuidando da minha mãe.
Ele nem sequer trabalhava naquele hospital.
Um gesto nobre, algo que apenas os médicos verdadeiramente humanos são capazes de fazer.
Lembro de ter ido até ele, um mês depois, apenas para agradecer. Ele chorou…


Lembro também da culpa que o professor Sinclair carregava.
Foi ele quem me incentivou a estudar fora.
E, como toda escolha implica renúncias, perdi os últimos momentos com minha mãe.
Quem poderia imaginar?

Hoje estamos aqui; amanhã, talvez não.

Fiz questão de dizer a ele (in memoriam) que aquela culpa não era dele.
Nem minha. Nem de ninguém.

A vida não é uma linha reta.

Nos últimos anos, sempre que essa data chegava, eu fazia um pequeno ritual:
levava uma flor ao rio.
Um gesto de despedida contínua.

Mas, recentemente, parei.
Percebi que, apesar da distância e do fim, ainda converso em consciência com minha mãe.
E, também, com meu pai, embora ele, sempre calado, apenas me observe.

Hoje escrevi duas páginas em dez minutos.
A depressão, por vezes, é criativa.

Mas, mais do que isso, quando reencontro minha dor, também reencontro minha força.
Percebo que tanta coisa é banal e eu não quero dar importância.
E aprendo a viver melhor, a dar valor ao que realmente importa.

Como dizia Belchior:
“Amar e mudar as coisas me interessam mais.”

Por isso, este relato se chama "Quando se aprende muito cedo a abrir as asas da alma."
Quando alguns laços se rompem, precisamos nos abrir de novo e encontrar outros laços.
Muitos não fazem isso.
Porque requer coragem.





sábado, 19 de outubro de 2024

2015: O fim e o início


Depois do medo, vem o mundo - Clarice Lispector


Tal qual foi minha surpresa ao ver que a nova sala tinha o número 2015, e imediatamente me remeteu a esse ano...

Talvez o mais difícil da minha vida, se 2014 não tivesse sido tão ruim. 

Mas não sei... O processo com o falecimento do meu pai foi aos poucos, como se estivéssemos nos despedindo dele ainda em vida. Já com minha mãe, foi uma perda abrupta, um tipo de choque que paralisa. Lembro desse sentimento, apesar de ter um hiato na memória... Lembro da minha reação.

Como assim a gente nunca mais iria se olhar? Minha mãe tinha uma coisa com o olhar, com seus olhos azuis... Expressava, além do céu, todos os sentimentos dela. A gente se entendia só por isso.

Voltando àquele número na sala, pensei no fim e no recomeço da vida. O mesmo ano, cujo número traz de volta um trauma, também me fez lembrar do início de algo. Talvez um aviso mental pra mim mesmo, visto que essa experiência é só minha, de que a cada dia a gente tem que recomeçar em meio a tudo. 

E foi assim que consegui superar tudo nesses últimos anos.

terça-feira, 30 de julho de 2024

educação, memórias e a era digital

Olhando este blog que comecei em 2010, quando ainda dava aulas, minha intenção era ajudar os alunos, que na época tinham pouco contato e habilidade com atividades em modo EAD, a se organizarem para realizar algumas atividades de estudo online. Foi uma forma que encontrei de aprofundar os conteúdos de sociologia, que naquela época só tinha uma ou duas aulas por semana, dependendo da série do ensino médio.

Mal sabia o que viria. Hoje, a sociologia está ainda mais desvalorizada e, ao mesmo tempo, tudo se faz pela internet, e pouco se faz em sala de aula, até pela precariedade existente.

O fato é que estava reparando que nos anos de 2014 e 2015 não postei absolutamente nada aqui, o que é muito compreensível, visto que esses foram os anos mais difíceis para mim. Tive que conviver com a ausência dos meus pais e, ao mesmo tempo, me organizar em outro lugar. Foi como se a minha história até aquele ano tivesse acabado.

Junto com meu irmão, saímos de casa e tivemos que doar grande parte das coisas do meu pai e da minha mãe. Tomei a consciência da finitude de uma maneira muito brutal, onde tudo acaba e ficam somente as memórias, essas que muitas vezes representam um hiato na nossa história.

Tendo consciência da finitude, passei a colocar aqui mesmo textos inacabados, e o blog foi tomando outro sentido, para além da educação. E não tem problema, sempre pode ser útil a alguém. Não sei...nos últimos meses me dei conta que tudo pode acabar a qualquer momento e escrever também é uma forma de deixar algo, ainda que seja uma reflexão. 

sexta-feira, 21 de junho de 2024

sobre a solidão e a desilusão


Nos dias em que queremos ficar sozinhas, uma zona cinza nos arrasta para todo tipo de pensamento ruim. As palavras se confundem, os pensamentos não se concretizam e, quando o fazem, é sempre para a desistência. Besteira para alguns, desânimo para outros. Talvez seja melhor não explicar e evitar a fadiga de ter que organizar o que não é possível. E quando tentamos escapar, ainda que no pensamento, fecha-se um ciclo entre tristeza, frustração, auto-ódio e desistência.

No auto-ódio, me questiono sobre minhas escolhas. Poderia tudo estar e ser diferente — poderia? Já não sei, parece-me que não, quando tudo está cerrado.

Lembro quando jovem gostava de ler Thomas Mann. Passava horas me encontrando naquela literatura triste de contos que falavam da desilusão: “Sabe, meu caro senhor, o que é a desilusão?”, perguntou, num tom baixo e apressado, agarrando a bengala com ambas as mãos. “Não o mau êxito em pequenos assuntos insignificantes, mas a desilusão grande, geral, que engloba tudo, tudo o que faz parte da vida? Não, claro, não sabe. Mas eu tenho sido acompanhado por ela desde a juventude; ela tornou-me solitário, infeliz e, não o nego, um pouco excêntrico.” Ele conseguia escrever o modo como eu me sentia e ainda me sinto.

Em tempos ainda mais difíceis, escrever sempre ajudava. Nas frases soltas, encontrava alguma linearidade, algum sentido naqueles pensamentos confusos. A terapia me ajudava a tentar buscar a causa, ao invés de inventar mentalmente outras causas. O que efetivamente estaria me incomodando? Como mudar? Algumas vezes encontrei uma resposta, em outras tentei e tentei. Daí os dias passaram, e aquilo que parecia uma nuvem cinza foi sendo levada pela brisa dos dias.
Algumas vezes escrevi de forma aleatória e pensava: o tempo vai passar, um dia vou ler isto e perceber que efetivamente não estava bem. Porém, acabei perdendo tudo, e aquilo se tornou uma memória que agora já nem sei se efetivamente vivi.

Estar longe tem suas questões, mas não me refiro a longe do país, mas sim da realidade. Poucos entenderiam o que realmente isto significa. Em todo caso, também não me interessa explicar; as pessoas não nos veem no que somos verdadeiramente. Em tempos de redes sociais, isso fica efetivamente pior. Tudo está sempre no âmbito da aparência. É tudo mentira. Eu mesma não acredito em nada. Custa acreditar que a maioria vive aquela felicidade que propagam. Se efetivamente vivessem isso, bastaria. Não seria necessário mostrar, como se precisassem — e, de fato, precisam — da validação de outros.

Daí tento recordar qualquer coisa positiva do antes. Qual antes? Antes da consciência de que sou uma pessoa tristemente doente. Um dia desses me perguntaram sobre a distância e o quanto isto poderia levar à tristeza. Não acho que seja bem assim. Há tempos aprendi a estar sozinha, experimentando o abismo de distâncias em todos os níveis, seja por conta do distanciamento, da não identificação, da ausência de partilha de histórias em comuns, da ausência de aproximação de um mundo comum. Alguns elos frágeis me unem a outras pessoas. São ligações como teias de aranha que podem se desfazer a qualquer momento. E foi assim que experimentei a solidão.



quinta-feira, 30 de maio de 2024

Dona Finota: a vida e legado

Ivone Teixeira dos Santos, a “Dona Finota”

Minha avó, uma mulher serena.

A iniciativa de escrever sobre minha avó Ivone foi para mim um desafio, afinal tivemos muitos momentos juntas e depois nos separamos drasticamente. Contar a nossa história pessoal, ainda mais quando nos acostumamos a nunca pensar sobre isso, é também recuperar nosso histórico no passado, um pouco de nós que ficou naquele tempo de convivência. 

Uma das minhas avós, Ivone, ou Dona Finota, como ficou conhecida, será a pessoa que resolvi relatar, ampliar esta experiência e fazer desta mulher que passou a vida à sombra, uma mulher histórica. Dona Ivone foi uma mulher racializada, que criou sete filhos e viu alguns deles falecer antes de si. Esta não é uma história inventada; quem inventa é a vida, parafraseando Gabriel García Márquez. Viver é algo bastante notável, há que se pensar sobre a vida, e tudo que a compõe é digno de registro, simplesmente porque nos diz respeito. Assim sendo, Dona Ivone, uma mulher descendente de indígenas e africanos, teve uma história apagada pela violência colonizadora da formação brasileira. Contudo, este texto dará dignidade a esta vida. 

Dona Finota era uma avó muito afável; morei com ela até os 19 anos, quando meu pai, por rompimentos familiares, resolveu se afastar. Num Brasil com passado escravocrata, sei pouco sobre seus antepassados, mas quando vivemos juntas, ela era a avó religiosa que acordava às 6 da manhã para fazer suas orações e sempre foi muito querida comigo e com meus irmãos. Recordo-me de alguns dos seus trejeitos: ela nos enchia de coisas para comer e depois reclamava que havíamos comido tudo, numa reclamação estendida a todos da família. Em sua vida, ficou conhecida como a esposa do Salvador dos Santos, meu avô, já que ela sempre esteve ao seu lado nas lutas comunistas que meu avô travou e que deixou marcas em todos que o conheceram. Como consta no artigo publicado no Jornal Andreense Diário do Grande ABC
"Dona Finota (apelido carinhoso de Dona Ivone, dos tempos de Minas), mulher de Salvador, acompanhou-o e o apoiou em todas as atividades desde o nascimento. A matriarca faleceu em Santo André em 30 de abril de 1966." (1)

Contudo, o jornal cometeu dois erros. O primeiro foi que ela não era apenas a esposa do meu avô; ela foi uma mulher que sobreviveu nesta sociedade. Em tempo, foi chamada de louca; quiçá havia mesmo enlouquecido com seu próprio silenciamento forçado. O segundo erro foi o ano de sua morte; ela viveu muitos anos mais, morrendo em 22/02/2009. Viveu para ver o hospital carregar o nome de uma das filhas em sua luta feminista. Na nota do seu falecimento, o jornal noticiou que Santo André perdia uma filha querida.


Dona Ivone era viúva de Salvador dos Santos, pioneiro da Vila Humaitá, participante ativo da igreja do bairro, do clube, da sociedade amigos e nome do centro recreativo e assistencial do bairro. O casal teve sete filhos: Maria José (nome do Hospital da Mulher), Josefina, Lurdes, Joaquim (ex-vereador e presidente da Câmara Municipal, editor do Almanaque de Vereadores, 1ª edição), Salvador Filho (bibliotecário e agente cultural), José e Ana Aparecida. Dona Ivone era natural de Campo Belo, em Minas Gerais, nascida em 8 de junho de 1923. Faleceu quinta-feira e foi sepultada sexta-feira no cemitério de Vila Pires. (2)

Nunca imaginei que a convivência com minha avó me marcaria de forma tão singular. Foi a partir da compreensão de sua experiência que compreendi toda uma linha racial marcada nesta família, e salta aos olhos o seu constante apagamento, que com este intento textual, pretendo reverter. 

Ao conversar com as primas mais velhas e perceber que muitas tinham poucas memórias da avó Finota, apenas lembranças de broncas e possíveis preferências entre um neto e outro, me dei conta de que vivi muito com minha avó. Nós dormíamos no mesmo quarto, ela me esperava da escola às 11 da noite, já que eu estudava no período noturno. O fato de eu não ter conhecido meu avô, que se tornou uma figura pública, me fez ver a valia daquela mulher que, mesmo em morte, apareceu como esposa. Ela foi uma mulher importante no seio de uma família politizada, suportou a dureza de conviver com uma maioria em que a racionalidade só opera por meio de discussões, e, por vezes, secundarizando a importância do afeto como uma transformação radical nos valores desta sociedade.

A morte de minha avó, mulher racializada, e do meu pai, seu filho, fez de mim um ser outro... 

Quando olho para suas histórias, vejo o que posso fazer e ser de diferente...

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Desvendando o Balão Mágico: entre nostalgia, influência e reflexões geracionais

Eu não assisti ao documentário "A super fantástica história do balão" que conta a história do grupo musical infantil formado em 1982 Balão Mágico.

Não assisti ao documentário, infelizmente, porque não tenho acesso a todos os aplicativos que disponibilizam séries, filmes e documentários. No entanto, como parte de uma geração que se educou através da televisão na década de 90, movida pela curiosidade e pelo fato de já ter tido contato com as músicas do grupo infantil quando eles já eram adolescentes, fiquei curiosa e decidi procurar vídeos e artigos que discutissem o documentário.

Confesso que fiquei surpresa ao descobrir que um dos discos do Balão Mágico, mais especificamente o quarto álbum, trazia um brinde que consistia em um cheque de Cr$5 mil, incentivando as crianças a abrirem ou pensarem em abrir uma poupança na Caixa Econômica Federal, em 1985. Passei alguns minutos ponderando sobre a influência desse fato, algo que até então nunca havia pensado.


Fonte: wikipedia


Lembro que na época um tio meu acabou por abrir uma poupança para meu irmão, que ainda criança sequer pensava nisso, mas alguém tinha que cuidar do futuro dessa geração. Uma geração que agora, talvez, com o término dos anos ditatoriais, poderia finalmente vislumbrar um futuro.

Para o meu tio, um homem que vivenciou o período ditatorial e suas perseguições, a mensagem musical de um mundo colorido e incrível do Balão Mágico talvez fizesse mais sentido e trouxesse mais esperança do que para nós, crianças que crescemos entre a escassez e a expansão da produção industrial após os anos 90. Nesse sentido, discordo da visão apresentada por Huyssen (2004), que sugere que ao revivermos a memória afetiva através da televisão, retornamos a um local seguro da infância onde as preocupações da vida adulta não existiam. Isso não se aplicava a nós, pois de alguma forma já tínhamos que enfrentar as dificuldades da vida adulta, mesmo sendo ainda crianças, especialmente em meio à crise e à inflação daquela época. A memória da escassez ainda permanece em mim e posso dizer que moldou a minha forma de socialização. Por outro lado, reconheço que meu exemplo individual, embora tenha representatividade social, é apenas um caso que, do ponto de vista científico, poderíamos classificar como uma "evidência anedótica" interessante para reflexão, mas que não constitui um método e que nem é o objetivo deste texto.

Eu era praticamente um bebê naquela época e, portanto, não tenho lembrança desses acontecimentos. No entanto, achei interessante a reflexão feita pelo PH Santos, um youtuber que analisa séries, filmes e documentários e que comenta esta transposição histórica entre o mundo sombrio da ditadura o mundo colorido do Balão Mágico e de uma geração que agora poderia vislumbrar um horizonte.

De fato, naquele momento, estávamos emergindo da ditadura e havia a necessidade de construir um imaginário infantil para aquela geração, que seria o futuro de um Brasil que, embora não plenamente democrático, começava a mostrar indícios de... uma democracia restringida, para citar o Cueva. Isso era especialmente verdadeiro onde eu vivia, na periferia, onde a democracia era, e continua sendo, algo a ser construído no dia a dia.

Voltando ao Balão Mágico, aparentemente, a ideia de criar um grupo infantil surgiu como algo externo ou estrangeiro, que estava fazendo sucesso entre as crianças em outros lugares. E o seu retorno através de documentários neste momento também se relaciona com uma estratégia de engajar um público online, como foi bem discutido por Lessa & Junior (s.d.). Algo que voltarei a discutir em um próximo texto...

Elaine Santos

Referências

Huyssen, A., Moreira, S. V., & de Carvalho Moreno, C. A. (2004). Mídia e discursos da memória. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, 27(1).

Lessa, L. A., & Júnior, M. A. B. O retorno do Balão Mágico e a evocação de memórias na TV: um estudo sobre teleafetividade.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Retratos de um Tempo: heranças operárias e reflexões no ABC Paulista


Ontem, meu primo, vivendo a tristeza do seu luto e das mudanças que a vida tristemente impõe, me enviou esta foto. Nela, podemos ver meu pai (in memoriam) e minha tia, que faleceu recentemente. Mesmo eu ainda não tendo nascido quando este retrato foi feito, conheço as histórias que envolvem esta foto e muitas outras. 




Meu pai e minha tia eram amigos. Foi minha tia que apresentou meu pai à minha mãe. Todos trabalharam juntos em uma fábrica no ABC e depois meus pais casaram-se e essas pessoas continuaram sendo amigas ao longo do tempo... 

Eu acho incrível como as fotos antigas, diferentemente das fotos atuais, sempre parecem nos remeter a uma história muito mais ampla. Ou talvez seja eu querendo contrariar a realidade atual, onde o "EU" prevalece sobre qualquer outra coisa, e esteja querendo ver na foto o histórico existente naquele período. A exemplo das teorias, ninguém mais discute a teoria em si, mas sim o "EU" na teoria... e tudo se esvai porque já não existe um sentido social e coletivo do teórico, mas o sentido individual de análise que é o que parece importar em tudo. 

Numa espécie de movimento contrário, deixo de olhar o "EU" para observar o entorno que esta foto poderia me oferecer... O que estariam eles pensando? Quem fez esta foto? Quais eram seus sonhos em um estado de São Paulo já industrializado no ABC, onde nasci? Quase todos os que viveram naquele período possuem alguma relação com as fábricas. 

E é por isso que meu pai, minha tia e seus amigos possuem um aspecto de estudantes e jovens trabalhadores...uma história comum naquele contexto e com um comportamento específico que caracteriza o sentido de suas vidas, como pertencentes a uma classe e imprimindo as atividades que exerciam. 

Sem esquecer de mim, porque, obviamente, mesmo sendo produtos sociais, também existimos individualmente... Quando olho esses olhos ainda em uma foto em preto e branco, também me vejo um pouco neles. E é isso que nos dói no momento de luto: a gente perde aquele olhar que parece ser a única coisa verdadeira nesse mundo recheado de mentiras e falsas aparências... O fato é que, ao olhar a foto, me vejo nessas pessoas e sei que suas formas de ser e viver reproduziram em nós, do ABC Paulista, efeitos sociais, simbólicos, afetivos e econômicos das suas relações subjetivas com a condição operária, e esta foi a maior herança material que recebemos: o olhar sobre o mundo pelo viés do trabalho, da repetição e da organização dos muitos iguais. 

Lembro do meu pai ter ficado feliz quando o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) passou a admitir garotas, porque agora a filha dele, que ele considerava muito inteligente, poderia seguir seu caminho e se tornar também metalúrgica, pois ali havia um ônibus que levava e buscava, o salário era bom e pago corretamente... lá a gente tem direitos! (dizia ele). Nunca consegui concretizar esse sonho do meu pai, até porque essa realidade já não existe. O nosso referencial de sucesso não era externo, mas estava baseado na realidade e somente na realidade, ou seja, aquilo que saciaria, de forma simples, as nossas necessidades básicas. 

Eu gosto da análise sociológica que diz que normalmente os pais desejam que seus filhos alcancem posições sociais melhores do que as suas. Entre os chamados "operários", essa herança pouco ascendente não era necessariamente um problema; ao contrário, a aceitação dessa continuidade era motivo de orgulho. 

Os metalúrgicos do ABC daquela época são muito orgulhosos de si e de sua história, e por isso o estudo profissional era o nosso caminho... e é também por isso que até hoje sei usar um paquímetro, graças aos ensinamentos da minha mãe. Porque isto era tudo que precisávamos na vida, conhecer profundamente os nossos futuros instrumentos de trabalho e ser consciente da nossa condição no mundo... a consciência da repetição, do anonimato individual na esfera pública, do aparecer nos livros de história sendo só coletivo (Os metalúrgicos do ABC) da submissão e da resistência…e foi assim que seguimos.

Elaine Santos 


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

a erudição não nos retira da exploração.


os descaminhos da plebe de cor


Quando consegui uma bolsa no doutorado, foram me entrevistar lá na periferia. Foi uma loucura! Minha mãe chamou todos os vizinhos e fez café para servir em xícaras, chamou minha tia para ajudar a deixar a casa intacta e limpa. Haha, até hoje não consigo ver o vídeo no YouTube. Foi engraçado...

Ela dizia: "Vem ver, Sueli! Vem, Maria! Inventaram de entrevistar a Elaine, não sei por quê. Esta menina sempre estudou." Meu irmão estava todo feliz, achando que ia ficar famoso. Mas minha única preocupação era mostrar que aquilo não era comum e que nunca deveria parecer meritocrático. Falei várias vezes que era uma exceção e que, mesmo com todos os esforços, as estruturas nunca mudam. Ter um doutorado não te inclui no mercado de trabalho porque a maioria das pessoas que aqui chegaram já possui todos os símbolos e contatos que nunca tive condições de construir. Logo, estou acessando e, ao mesmo tempo, sendo excluída. Por isso, não exalto títulos, mas sim o conhecimento, porque só este pode mudar nossa situação. Foi importante conseguir, afinal não é sempre que alguém da periferia resolve estudar extrativismo, petróleo e energia... Meu bairro ficou feliz e se orgulha. Na minha cabeça, sou incapaz de comemorar quando a maioria vive mal. Como disse, o "eu" só existe no "nós". Não apago as conquistas; ao contrário, coloco todas no mesmo patamar para que caminhemos juntos. Um título não mudará aquilo que fui no São Jorge e que ainda sou.
As pessoas gostam de se diferenciar, mas eu gosto de igualdade de acessos. Há muita gente sem título nenhum com muito mais sabedoria do que eu. Foram essas pessoas que mais me ensinaram, nas greves do ABC, quando ainda criança acompanhava meu pai, e por isso as honro, porque lutamos para mudar.



FONTE https://br.napster.com/artist/el-plebe/album/entre-cerveza-ritmo-y-emocion-ep




segunda-feira, 29 de maio de 2017

François Houtart: uma vida de luta e inspiração


A triste manhã do dia 06 de junho nos deixou uma inspiração para seguir combatendo as injustiças. O conhecido padre ativista de esquerda belga François Houtart faleceu em Quito, Equador. O homem que carregava importantes títulos: Professor Emérito da Universidade Católica de Louvain, diretor do Centro Tricontinental, secretário executivo do Fórum Mundial de Alternativas, membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial de Porto Alegre e Presidente da Liga Internacional pelo Direito e a Liberdade dos Povos. O sacerdote admitia que o mais importante era falar dos seres humanos. Assumidamente marxista, nos deixou um legado de reflexões críticas importantes, de alguém que neste mundo se manteve lúcido, não caiu nos arrivismos, tampouco nos ataques contra o seu sacerdócio um pouco fora do eixo para o conservadorismo cristão. Quem dera a igreja assumisse em práxis aquilo que apregoa em palavras, podiam aprender com o sacerdócio de François Houtart.

Incansável diante da luta contra a pobreza, deixa para mim um significado especial, uma vez que, como moradora da Cidade São Jorge em Santo André e estudiosa do Equador, um dia resolvi escrever a ele, porque imaginei que, sendo padre, talvez tivesse um pouco mais de fraternidade com alguém que queria estudar com afinco, mas não tinha os ‘apadrinhamentos’ e ferramentas do ‘academicismo burguês’ para saltar sua própria realidade. Eis que o Houtart responde e, desde então, se tornou um amigo. Leu meu último texto em março de 2017 e deu seus palpites, sempre a me estimular na continuidade da crítica radical. Sua morte me entristece especialmente; por outro lado, nos deixa um exemplo de quem entendeu o marxismo em sua profundidade, não apenas em suas teorias e ativismos, mas principalmente em uma luta que começa no cotidiano e na nossa forma de agir com o outro.

Ao olharmos sua página de textos, vimos que publicou até 29.05.2017, teve uma vida dedicada até os últimos dias de sua vida à militância. O texto intitulado “A Venezuela de hoy y de mañana” finaliza com um chamado a ultrapassarmos as nomenclaturas dadas pela esquerda que se nega a admitir que só uma Revolução Social como pano de fundo pode transformar a sociedade. Mudam-se os nomes, agora temos uma visão holística e importante do mundo, mas que por vezes nos afasta do objetivo da luta, que é a morte do capital. Assim Houtart finaliza seu texto dizendo:

“Es lo que podemos llamar el Bien Común de la Humanidad o el Ecosocialismo o de cualquier otro nombre que permite sintetizar el contenido. La conquista de esta meta exige transiciones que tomarán tiempo y que precisamente gobiernos de cambio tienen que definir, cada uno en sus fronteras.”


Referência:

Houtart, François. (2017). A Venezuela de hoy y de mañana. In http://rebelion.org/noticia.php?id=227209