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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Caçador de mim

Por tanto amor

Por tanta emoção

A vida me fez assim

Doce ou atroz

Manso ou feroz

Eu, caçador de mim

Preso a canções

Entregue a paixões

Que nunca tiveram fim

Vou me encontrar

Longe do meu lugar

Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta

Nada a fazer senão esquecer o medo, medo

Abrir o peito a força, numa procura

Fugir às armadilhas da mata escura...


Milton Nascimento

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Passagem do ano - Carlos Drummond de Andrade

 PASSAGEM DO ANO

(Carlos Drummond de Andrade)

 

O último dia do ano

não é o último dia do tempo.

Outros dias virão

e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.

Beijarás bocas, rasgarás papéis,

farás viagens e tantas celebrações

de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,

que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,

os irreparáveis uivos

do lobo, na solidão.

 

O último dia do tempo

não é o último dia de tudo.

Fica sempre uma franja de vida

onde se sentam dois homens.

Um homem e seu contrário,

uma mulher e seu pé,

um corpo e sua memória,

um olho e seu brilho,

uma voz e seu eco,

e quem sabe até se Deus…

 

Recebe com simplicidade este presente do acaso.

Mereceste viver mais um ano.

Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.

Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,

mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,

e de copo na mão

esperas amanhecer.

 

O recurso de se embriagar.

O recurso da dança e do grito,

o recurso da bola colorida,

o recurso de Kant e da poesia,

todos eles… e nenhum resolve.

 

Surge a manhã de um novo ano.

 

As coisas estão limpas, ordenadas.

O corpo gasto renova-se em espuma.

Todos os sentidos alerta funcionam.

A boca está comendo vida.

A boca está entupida de vida.

A vida escorre da boca,

lambuza as mãos, a calçada.

A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 

terça-feira, 18 de junho de 2024

a necessidade de esperança e a luta por mudanças na América Latina


Quando lembramos do enterro de Getúlio Vargas, aquela multidão de pessoas querendo tocar no caixão (sim, temos história e ela segue se repetindo como tragédia/farsa), entendemos parte da necessidade de ter esperança em algo que altere minimamente nossa vida pautada no trabalho e no presentismo.

Aqui, não estou discutindo as políticas do “Getulismo” — podemos fazer isso em outro momento — mas sim o que essas lideranças representam para o povo. Meus pais, por exemplo, chamavam Vargas de "pai dos pobres". Isto não é uma especificidade nossa; todos os países da América Latina tiveram o seu "salvador".

A figura do salvador na América Latina reflete nossa dependência econômica, a forma como sofremos na sobrevivência, e a necessidade de ter um "alento". E SIM, eu estou comemorando também — ninguém vai tirar isso de mim. Porém, é importante lembrar que, historicamente, todas as figuras personificadas na liderança vieram como tentativas de criar consenso, ou seja, abafar o grito desesperado de um povo em crise que poderia ser sujeito, mas que, sem forças, coloca em alguém (outro) seus anseios.

Vargas no Brasil e Perón na Argentina, por exemplo, implementaram uma série de regulamentações trabalhistas como mecanismos de contenção dos trabalhadores. Essas regulamentações obviamente ajudaram o trabalhador, mas acabaram por abafar suas lutas, dando como vitória somente a legislação. O chamado progressismo da última década também surge nesse ideário. A população, descontente com as reformas neoliberais impostas, segue sofrendo e busca uma alternativa desesperada. Assim, muitos governos ditos de esquerda ganham as eleições em vários países.

Todos esses governos implementaram políticas voltadas à transferência de renda às famílias, com base nos objetivos de desenvolvimento do Milênio e no cumprimento de uma das sanções da Organização das Nações Unidas iniciada no ano de 2000, para erradicação da pobreza como item prioritário. SIM! Importa diminuir a pobreza, porém precisamos avançar na questão central, que não é apenas redistribuição de renda, mas sim, o que gera a vergonhosa pobreza.

Nenhum dos governos progressistas na América Latina, respeitada a importância de suas reformas, conseguiu qualquer controle ou reversão do capital financeiro, principalmente sob a égide da marcha célere imperial hegemônica. Ao contrário, fomos parceiros na nossa condição de subalternidade, na nossa posição mais ou menos crítica, mais ou menos de esquerda. Sabemos que a história não dá passos atrás — "el pasado no volverá". Só para dizer que precisamos criar um estatuto nacional autêntico.

Este pequeno texto abre espaço para uma série de outras reflexões, mas não podemos abandonar a luta por um novo ser humano, na sociedade que queremos e que deixaremos. Entender a especificidade da situação latino-americana e os nossos problemas não é uma tarefa simples. E me recuso a acreditar que estamos condenados. Quando as cortinas se levantam, percebemos como os fios da trama estavam sendo tecidos. Aproveitemos este momento. O que definirá as mudanças é nosso amadurecimento daqui para frente. 

Perdoem a vulgarização dos conceitos.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Haiti: a ocupação sem fim

 

Será que a chamada "comunidade internacional" tropeçará novamente na mesma pedra do humanismo que nega o ser humano, a justiça controlada à distância e a paz nos cemitérios?



Lautaro Rivara é sociólogo, jornalista e analista internacional. 


Um jornalista de uma importante agência de notícias internacional pergunta, com aparente boa fé: "E quem você acha que deveria resolver os problemas dos haitianos?" Lembro-me então de um antigo exercício de lógica, que recomenda transpor os termos ou os assuntos de um enunciado para pesar sua razoabilidade. A questão, por si só, revela seu ridículo, apenas por aplicá-la a qualquer outro país: quem deveria resolver os problemas dos Estados Unidos, por exemplo, um país que viu seu Capitólio ser assaltado por hordas de trumpistas? E quem deve resolver os problemas na França, abalada pelas espasmódicas e massivas manifestações dos chamados “coletes amarelos” desde outubro de 2018, com uma participação estimada, até o momento, de mais de 3 milhões de pessoas? Ou os da Inglaterra, cujo projeto tumultuado de desligamento europeu incluiu, entre outros problemas, o fechamento do aparentemente exemplar Parlamento britânico em agosto de 2019, por decisão do primeiro-ministro Boris Johnson? Certamente poderíamos concordar que os responsáveis pela solução de todos esses (e ainda mais graves) problemas nacionais são, respectivamente, os americanos, os franceses e os britânicos. Por que então, não podemos responder com a mesma naturalidade cada vez que o Haiti entra, excepcionalmente, na agenda global? Por que é necessário afirmar e reafirmar o óbvio, ainda mais considerando que este povo é independente há 217 anos? 


*** 

O Haiti possui vários recordes em termos de intervencionismo. De todas as operações de reconquista colonial sobre as nascentes repúblicas latino-americanas e caribenhas que obtiveram sua independência no início do século 19, nenhuma foi tão massiva quanto a organizada em 1801 por Napoleão Bonaparte e seu cunhado Emmanuel Leclerc, comandando mais de 43.000 homens e a maior frota da época. Tratava-se, então, de recuperar a rebelde "Pérola das Antilhas", cuja economia escravista de plantation significava para a metrópole francesa cerca de um terço de sua receita. Essa parte da ilha foi, na época, presa do fervor revolucionário que daria origem, em 1804, ao nascimento da República do Haiti.


Como correlato dessa liberdade pioneira, o Haiti também teria o triste privilégio de ter sofrido a primeira dívida externa, imposta por uma frota de guerra francesa ancorada na baía de Porto Príncipe em 17 de abril de 1825. Em uma daquelas típicas cenas “com as pernas para o ar”, como diria Eduardo Galeano, os senhores de escravos exigiam dos ex-escravos indenizações por danos, obrigando a nação a pagar uma soma, escandalosa para a época, de 150 milhões de francos. Mas nem todos esses "recordes" teriam a França como protagonista. Das centenas de ocupações, invasões, desembarques e pirataria dos EUA neste hemisfério - incluindo a conquista de grande parte de seu próprio e atual território, confiscado do México entre 1846 e 1848 - nenhuma foi tão extensa quanto a ocupação dos Estados Unidos, presente no Haiti com seus fuzileiros navais por 19 longos anos entre 1915 e 1934. 

Podemos citar também a participação de organizações supranacionais. De todos os países intervencionados por missões civis, policiais ou militares das Nações Unidas, nenhum viu tantos contingentes estrangeiros tocarem o território nacional, pelo menos nas últimas décadas: um total de 9 missões de diferentes signos tiveram sucesso nos últimos 28 anos. Além disso, nesse período, o Haiti passou apenas dois anos (2002 e 2003) sem uma presença estrangeira formal, e continua até os dias atuais, com a presença do BINUH (o Escritório Internacional das Nações Unidas no Haiti, para o seu acrônimo em francês) e pela ainda pendente aplicação ao Haiti do Artigo VII da Carta da ONU que presumivelmente rege os casos de "ameaças à paz" ou "atos de agressão" e aponta para o Conselho de Segurança como uma espécie de autoridade final no país. Mas ainda é preciso citar outro caso de intervenção estrangeira que costuma passar despercebido: o onguismo colonial. Segundo vários estudos, estima-se que haja 12.000 ONGs presentes no Haiti, com a república caribenha atingindo a maior concentração per capita do mundo, o que lhe valeu o apelido sorridente de "república das ONGs" ou, pior ainda, "HaitONG". A grande maioria dessas organizações é, naturalmente, de origem estrangeira, ou pelo menos simplesmente subsidiárias locais de grandes agências de cooperação internacional, como a Comissão Europeia ou a norte-americana USAID. A personificação do estado e de suas funções, a cooptação de líderes locais de organizações territoriais e a disseminação de todos os tipos de acusações e teorias coloniais são alguns de seus resultados mais notórios. 

*** 

Em 23 de novembro de 2018, tivemos o triste privilégio de conhecer o último desdobramento operacional da Missão das Nações Unidas para o Apoio à Justiça no Haiti (MINUJUSTH), sucessora da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (a muito mais conhecida MINUSTAH)



Bloqueados e incomunicáveis em Porto Principe, incapazes de retornar à nossa cidade rural em Montrouis, nós literalmente colidimos com os Capacetes Azuis a apenas dois quarteirões da casa onde uma família generosa nos abrigava enquanto acompanhamos as mobilizações e passamos pela turbulência que havia bloqueado a estrada. Eram os ecos da insurreição popular de julho de 2018 contra a “recomendação” do Fundo Monetário Internacional (FMI) de eliminar os subsídios aos combustíveis. 


Dificilmente poderíamos fazer justiça a essa cena. Num ano como aquele, turbulento, dramático, heroico, em que o povo haitiano saiu às ruas quase diariamente com centenas de milhares de pessoas, as forças pretorianas da ordem internacional passaram a restringir o legítimo direito de rebelião deste povo que sempre tem uma última palavra, um último gesto, uma última revolta tirada do fundo de reservas morais aparentemente inesgotáveis. Imagine a avenida mais importante ou emblemática da capital de cada um de seus países. Agora imagine-o ao longo de suas centenas de metros, ocupado, em cada esquina, por um posto de controle de um contingente militar de um país diferente. Assim, puderam identificar ali o canto dos paquistaneses, dos brasileiros, dos nepaleses, dos croatas, dos filipinos, dos argentinos, dos norte-americanos, dos franceses. Todos bem armados e equipados, acompanhados por veículos blindados e carros hidrantes, diante de um povo em choque, de olhos bem abertos, colados nas fachadas dos prédios como se fosse um boxeador contra as cordas. Agora contam com 23 esquinas, pois 23 países foram os que passaram a ocupar, simultaneamente, um povo pacífico e desarmado, sem forças militares e sem histórico de agressão a terceiras repúblicas - muito pelo contrário, com uma longa história de solidariedade e gestos desinteressados para países tão diferentes como a Colômbia, a República Dominicana, os Estados Unidos ou a Argentina. A mesma coisa aconteceu, não uma, mas centenas de vezes na Avenida de Delmas, o equivalente exato, no Haiti, de cada uma dessas largas avenidas da capital: uma rua que corta longitudinalmente a área metropolitana, a partir da Baía de Porto Príncipe para o distrito de Pétionville, transformado na trincheira sem fim das forças multilaterais de ocupação.




Fonte - Haiti tem série de protestos intensos desde 2018 - 
ORLANDO BARRÍA/EFE - 14.02.2021


É fácil refutar os argumentos intervencionistas, quando procuram justificar-se valendo-se do arsenal conceitual do antigo colonialismo que todos conhecemos. Quando se referem à "selvageria" das tribos "bárbaras"; ao caráter "pré-lógico" das mentalidades não ocidentais; ao “paganismo” dos povos “animistas” e “fetichistas” que devem ser evangelizados com cruzes e espadas; à irredutível "animalidade" dos negros e afrodescendentes que talvez tenham alma; à "ociosidade" e à "preguiça congênita" de sujeitos que definham sob o sol dos trópicos; à "ingovernabilidade" e à necessidade de proteger as sociedades "recém-nascidas" para uma vida independente; às "vantagens comparativas" de quem parece condenado pela providência a vender alimentos e minerais para importar veículos e satélites. Mas é muito mais difícil lidar com os argumentos intervencionistas contemporâneos, tanto mais elaborados e sofisticados, que já não dispensam o apelo cínico, mas sincero, às prerrogativas dos mais fortes e ao direito de conquista. Tanto a MINUJUSTH como a MINUSTAH foram justificadas no seu tempo por uma série de pleonasmos que, embora já fizessem rir o mais inventivo dos nossos escritores, não deixaram de ser menos eficazes: o "intervencionismo humanitário", a "responsabilidade de proteger", o " princípio da não indiferença ", ou" a salvaguarda da segurança nacional dos Estados Unidos "eram alguns dos seus álibis. Essas forças de ocupação permaneceram no território nacional por 15 anos, o equivalente a três mandatos presidenciais plenos. Totalmente abolidos foram os antigos e presumidos pilares da ordem jurídica internacional, a saber, o princípio da soberania e o direito à autodeterminação das nações. 

*** 

Seria extenso e também ocioso fazer um balanço completo do equilíbrio dessa intervenção: jornalistas, acadêmicos, organizações de vítimas, movimentos de mulheres e feministas já o fizeram de maneira brilhante e enfática. Mas talvez possamos citar: políticas sistemáticas de violência sexual, que incluíram abusos, pedofilia, estupro e a participação dos Capacetes Azuis em redes de prostituição e tráfico. A perpetração de vários massacres em alguns dos bairros mais populosos da área metropolitana, como o, conhecido mundialmente, que ocorreu em Cité Soleil: o resultado dessas escaramuças foi o assassinato de centenas de jovens, o aniquilamento de organizações inteiras e a desmobilização de bastiões de resistência popular e organização comunitária onde agora florescem organizações criminosas, gangues armadas e um incipiente tráfico de drogas. E, claro, um dos maiores crimes desses mais de dois séculos de intervencionismo ocidental no Haiti: a introdução de uma epidemia de cólera pela MINUSTAH despejando um caminhão de dejetos fecais com o vibrião da doença em um afluente do rio principal. do país, o que causou vários milhares de mortos e mais de 800 mil infectados. 

Os pedidos de reparação e justiça das vítimas colidiam com a inconsistência das Nações Unidas que interpretam sua supranacionalidade como supralegalidade, assumindo sua “culpa”, mas não sua “responsabilidade” em termos jurídicos. Enquanto escrevemos isto, um novo terremoto político sacode o país: o assassinato do presidente de fato Jovenel Moïse na madrugada de 7 de julho em sua residência privada em Pèlerin. Mais uma vez, com uma realidade nacional sobredeterminada do exterior, e com um crime, internacionalizado, que envolve 28 mercenários e paramilitares de nacionalidade estadunidense e colombiana. Diante do vácuo de poder gerado, e induzido pelo próprio Ocidente, ao apoiar um regime como o de Moïse, que um ano e meio atrás havia consumado o colapso da ordem democrática - sem Parlamento, sem eleições, sem primeiros-ministros legais e com seus mandato. constitucional expirado-, vários poderes e organizações estão agora posicionados no mesmo caminho de intervencionismo sem fim. 

A Colômbia de Iván Duque, que participa do próprio assassinato com soldados aposentados de suas Forças Armadas, insta a Organização dos Estados Americanos a intervir peremptoriamente na ilha. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, está disposto a "ir em auxílio do Haiti", enquanto o Departamento de Estado confirma o envio de agentes do FBI e da Agência de Segurança Nacional. O presidente da vizinha República Dominicana, Luis Abinader, está acelerando os planos de construção de um muro de fronteira que divide a ilha de Hispaniola. Ao mesmo tempo, o Conselho de Segurança das Nações Unidas se reúne, a portas fechadas, tendo o Haiti e sua crise como ponto central de sua agenda. Será que a chamada "comunidade internacional" voltará a tropeçar na mesma pedra do humanismo que nega o ser humano, a justiça controlada à distância e a paz nos cemitérios? 


Será que assumirá desta vez, perante uma nova e eventual intervenção, a sua responsabilidade no extermínio de conta-gotas, no caos induzido, na violência sexual sistemática e na propagação de epidemias? Os Estados membros da ONU e seu Conselho de Segurança apoiarão, sob cálculos mesquinhos ou argumentos francos, uma nova guerra unilateral desse tipo ou qualquer de suas variantes concebíveis? 


Mais uma vez, e pela enésima vez, a espada de Dâmocles de ocupação sem fim paira no ar.






domingo, 2 de agosto de 2020

A necessidade da revolução democrática para uma nova ordem social



Estamos diante de uma gravíssima situação nacional. As esquerdas conservadoras, ao não compreenderem ser o próprio capital o agente da demolição nacional, não elegem os trabalhadores como eixo da transformação socioeconômica necessária. É preferível a derrota eleitoral com os trabalhadores humilhados e miserabilizados pelo desmonte neoliberal, do que o abraço com a burguesia criadora deste pandemônio neocolonial que nos avassala. É preciso abrir caminhos para quebrar o círculo vicioso das derrotas e desmanches sucessivos.

São muitas as variantes de democracia rolando na praça. 

A finada Nova República, na fase final, experimentou o duopólio PT x PSDB, cujo neoliberalismo social pretendeu conviver com o melhorismo nos marcos da fúria nacional, sob batuta mundial, do novo capital financeiro. As burguesias vetaram essa democracia melhorista, com ajuda substantiva dos gringos. Puseram no poder a ultradireita, adepta da democracia restritíssima da autocracia sob jugo plutocrático banqueiro.

A experiência de construção de um capitalismo melhorado sob o capital financeiro faliu. Aqui e no Chile, veja o que nos espera. Os marxistas brasileiros já haviam descoberto, nos anos 60, a impossibilidade, em nossa particularidade histórica - assim como de todas as ex-colônias ibéricas -  de democracia capitalista e soberania econômica e política nacional. Nossas burguesias nunca quiseram isso. Somente a expansão, o salto democrático sob a égide dos interesses das maiorias trabalhadoras nos levará à estabilidade democrática e à plena soberania, com cidadania plena do trabalho frente ao capital.

Isso se chama revolução democrática. 

Infelizmente, nenhuma das esquerdas conservadoras, da mais à menos civilizada, pensa assim.
Ou seja, ainda estaremos por longo tempo sujeitos aos sucessivos desmanches promovidos pela contrarrevolução permanente advogada desde sempre por de nossas classes proprietárias e seus amos. Sem uma poderosa força da democracia revolucionária não quebraremos o encantamento que nos prende à miséria, à dependência neocolonial e à batuta da contrarrevolução.

Hoje, todas as forças da democracia conservadora, do derrotado melhorismo mais civilizado até a antidemocracia no poder se organizam, nestes instantes, para disputar a divisão do orçamento público nas próximas eleições, todas elas solidárias com a alienação social e econômica dos trabalhadores como resultado das unânimes reformas capitalistas promulgadas pelo congresso, por iniciativa do executivo. 

Todas as forças da democracia conservadora estão unidas em torno de sua nova democracia, dessas reformas exclusivas pró-capital, forma de criar a inserção neocolonial da nação, ou seja, a destruição da nação e sua transformação em espaço de regência de classes burguesas neo-vassalas do novo capital financeiro, forma específica de refeudalização capitalista da reprodução social. Sua nova democracia pressupõe a expulsão dos trabalhadores da arena socioeconômica e política em prol daquilo que para todos é pressuposto estratégico, as reformas capitalistas exclusivas dos interesses do capital e a inevitável constrição da democracia ao mínimo necessário para o livre negócio dos blocos políticos da ordem. 

A liofilização da ultradireita antidemocrática agora interessa para a divisão do orçamento público, embora esta força política ainda permaneça sendo fonte vital dinâmica das reformas nacionais necessárias ao capital e sua arquitetura mundial neoliberal. 

Os trabalhadores continuam, desse modo, vítimas do círculo vicioso das inevitáveis derrotas sucessivas e dos subsequentes desmanches de suas conquistas em ciclos crônicos de repressão e violência institucional necessários para mantê-los ordeiros e disciplinados em sua avançada miséria e desemprego, em sua acrescida impotência política.

Texto de Paulo Lima 

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

resposta a Rita Segato


A escritora ativista e feminista Rita Segato acerca da situação em Bolívia geraram muito ruído, muita indignação por parte de alguns setores, me parece que é importante poder refletir a respeito, colocar em discussão, em profunda discussão o que ela disse.

A escritora disse “para mim Evo não foi vítima de um golpe, mas sim vítima de um descredito geral, caiu por seu próprio peso, por um vazio de poder que foi gerado por muitos erros e excessos.  Segato acrescentou que se manifestava contra uma visão binária e assegurou que por mais que “Camacho seja uma figura malvada, isto não implica que Evo seja uma figura perfeita” e seguiu com outros parágrafos.

O primeiro que quero dizer é que toda intelectualidade que está localizada fora dos valores e da defesa da vida, são uma farsa
Toda analise social e política que alguém queira fazer que não tenha como caminho a dignidade do ser humano que não se veja através do prisma do direito mais fundamental que é o direito a vida, é uma farsa, digam o que quiserem. Ademais, a verdade é que difícil aceitar que um intelectual até os dias de hoje não assuma que sua palavra, desde o momento que sai da sua boca em primeiro momento é uma palavra coletiva, a partir da confiança construída por este intelectual seja homem ou mulher, etc.

Isto faz desta palavra, uma palavra muito mais poderosa, portanto, deveria ser muito mais responsável, se bem que Segato não nega o golpe de Estado, mas o justifica e é muito grave que uma intelectual do campo nacional e popular coloque em sua voz o relato do golpista o relato dos negacionistas, e mais grave ainda é que sua voz, que não é qualquer voz, seja o relato que aplaude o opressor e o torturador

Justificar o golpe de estado em Bolívia, com a justificativa que em não cair no em uma visão binária é francamente irrisório, porque temos que dizer a ela que a visão...claro que é binária porque estamos falando entre a vida e a morte

Primeiro temos que dizer que é obvio que Evo não é perfeito, ainda que Camacho seja um monstro, Evo não é perfeito, porque se este é o binarismo que ela quer escapar, escutem!! porque o binarismo pode ser um extremo negativo, agora tudo dá igual ou é a mesma coisa também é negativo e nesta caso, diante as duas possibilidades, diante dois extremos, fico o binarismo.

Porque insisto hoje Bolívia é binaria, está entre a vida e a morte está entre os que matam e os que morrem, entre a democracia e a ditadura. Colocar como argumento do golpe, os supostos erros de Evo é nem mais nem menos que buscar na vítima algo que a torne culpada. E isto não se pode permitir a ninguém, muito menos a alguém que construiu sua intelectualidade em defesa das vítimas, você não é qualquer pessoa Segato, você não pode dizer isto.

Que arrogância é preciso ter, que comodo deve estar em sua poltrona, que bom deve estar o ar puro, que acolhedor deve estar tudo, como disse ontem o psicanalista Jorge Aleman[1] "No momento em que o carrasco levanta o machado, convidam a vítima a 'desconstruir-se'"

É uma loucura!!

Me pergunto o quão alto está a vossa intelectualidade que não pode ver e sentir a dor alheia. Humildemente, um simples comunicador te convida a desconstruir  sua intelectualidade embarreirada  há um bom amalgama entre a universidade  e o “barro” proponho, com respeito a ti, que coloque sua intelectualidade, seu saber seu conhecimento a serviço dos povos que querem se libertar e ter dignidade e não os entregue em bandeja aos violentos e opressores. Estão massacrando o povo indígena boliviano, estão matando homens e mulheres e Segato nos pede que enquanto isto, enquanto os matam, faça uma autocrítica, não faz falta que lhe diga que se tiraram Evo do poder é pelo que fez bem.

Segato, a direita não avalia os erros e a partir dos erros age, a direita entende que nós, o campo nacional e popular, somos o erro em si mesmo. É ideológico, não conjuntural, se basear no fato que os erros de Evo estão sendo pagos com sangue nas ruas é imperdoável e não tem volta atrás, colocar nas mãos de Evo o sangue de seu povo é de uma miserabilidade própria de uma intelectual, mais autocentrada do que preocupado com aquilo com a rodeia.

Argumentar como parte da justificativa que evo era machista é irrisório e ainda te aproxima dos fascistas

Evo era machista? Sim, evo era machista, lastimo que em sua analisa não tenha falado da igreja machista que entrou a dar o golpe, do império machista que impulsionou o golpe, nem dos militares machistas que estão executando o golpe, parece que o machismo golpista não foi contemplado na análise.

E quero agregar um dado, conhecendo o que Evo é, posso dizer que é uma pessoa com diversas afirmações machistas, o governo de Evo o que levou adiante a lei contra o racismo e toda a forma de discriminação contra a mulher e contra a perseguição, a violência política, contra a mulher também levou adiante Evo. Antes de Evo somente 15% dos títulos agrários estavam nas mãos de mulheres, hoje são 46% dos títulos agrários estão em nome de mulheres. Segundo a ONU, Bolívia é o terceiro pais como maior participação política das mulheres, que Evo é machista? Sim, estamos todos neste processo. Lastimo que a intelectualidade de Segato esteja tão longe da vivência das mulheres bolivianas, sobretudo das mulheres “camponesas” estão sendo assassinadas agora, não quero pensar realmente, não é irónico, que seu feminismo não esteja apto as mulheres indígenas. A discussão não é sobre você, mas sim sobre o autoritarismo, sobre o racismo e até a inquisição religiosa. Não sei que revolução é possível propagar se não condenamos a violência aos direitos humanos primeiro. Em nome de nada se pode banalizar o mal, sinto que Segato perguntou a Evo, o que você fez?

É uma lastima, suas palavras doem Segato, porque dá de comer as feras em um momento onde estas estão desesperadas e com fome, prestes a devorar este povo, que resiste, lastimo pagarmos tão caro, a direita lhe celebra e lhe aplaude de pé

 O texto é uma tradução do vídeo 



 O artigo original de Rita Segato





[1] “En el momento en que el verdugo levanta el hacha invitan a la víctima a 'deconstruirse'”

domingo, 13 de outubro de 2019

uma abertura no Equador



Por Décio Machado

Uma abertura


O surto popular desencadeado pelas exigências do FMI abala um país em transição e põe em xeque o governo de Lenín Moreno. Confrontado com a atual administração e a oposição correista, um movimento indígena renovado lidera os protestos com uma ambiciosa plataforma de reivindicações.

O Equador está imerso em uma greve geral. Nesta semana, o prédio da Assembleia Nacional foi ocupado por manifestantes, depois que os poucos funcionários públicos que estavam lá dentro foram evacuados às pressas: os legisladores foram os primeiros a deixar o navio um dia antes. O slogan de um setor dos mobilizados é: "O governo da Assembleia dos Povos em Quito e o governo de Lenin em Guayaquil". Nestes momentos, tudo pode acontecer. A Ouvidoria confirmou pelo menos cinco mortos em relação a protestos e brutal repressão policial. Os detidos são estimados em cerca de 800, segundo dados oficiais.



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O gatilho


Na quinta-feira, 3 de outubro, a liderança da Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie) convocou, juntamente com setores do sindicalismo tradicional, uma greve nacional com o objetivo de expressar sua discrepância em relação às últimas medidas econômicas do governo. O anúncio do Conaie levou ao início de uma série de mobilizações em diferentes localidades do país e de assembleias permanentes em territórios com forte presença indígena, com o objetivo de coordenar uma grande mobilização em Quito na demanda pela revogação do decreto 883, que incluía o aumento dos preços dos combustíveis em todo o país.

O antecedente desta medida encontra-se nos acordos estabelecidos pelo governo equatoriano com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Essa agência financeira multilateral exige dos cofres públicos uma otimização econômica de 1,5% de seu PIB por meio de reformas tributárias, em troca de conceder a eles mais de 10.000 milhões de dólares em financiamento nos próximos três anos. O problema do desequilíbrio econômico do Equador não é novo: já em 2016 - a última fase do mandato de Rafael Correa - havia relatórios que recomendavam um ajuste fiscal assertivo para preservar a estabilidade macroeconômica e financeira do país, como resultado do desequilíbrio entre gastos e despesas. renda nesta economia dolarizada desde o início do século. O governo correista decidiu, na época, manter esses relatórios em reserva e não os publicar diante da população.

Duas opções tiveram que ser tratadas pelo governo presidido por Lenín Moreno diante de tais demandas de arrecadação de fundos: ou aumentar o IVA em três pontos percentuais - uma medida que, segundo a mídia, parecia ser a mais provável e, em princípio, mais regressiva - ou a que foi definitivamente aprovada. A priori, a opção adotada pelo governo equatoriano parecia ser a menos conflitiva.
Um modelo de subsídio com baixa eficiência, que não tinha foco e que beneficiava principalmente grandes empresas com alto consumo de combustível, grandes frotas de transporte e setores de elites econômicas que possuem mais de um veículo por unidade familiar, parecia ser o que menos rejeição social poderia gerar. Dessa forma, Moreno decretou o fim dos subsídios, o que implicou um aumento notável nos preços da gasolina “extra” - a mais utilizada no país -, passando o galão de 1,45 para 2,41 dólares. Da mesma forma, a gasolina da Ecopa (extra com etanol) aumentou de 1,45 para 2,53 dólares e a super, de 2,3 para 3,07 dólares.




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Estados de exceção


Por experiência histórica, o povo equatoriano está ciente de que o aumento dos preços dos combustíveis afeta o bolso da sociedade como um todo, sejam eles proprietários de veículos ou não. Os preços das commodities e os indicadores de inflação são geralmente afetados indiretamente por esses tipos de medidas. Mas o descontentamento geral entre a sociedade não mudou a posição de Moreno, que afirmou permanentemente que a liberalização do preço do combustível a custos internacionais é uma política necessária para a melhoria das finanças públicas e sobre a qual “não há progresso. voltar”.

As organizações sociais equatorianas definiram as medidas econômicas estabelecidas pelo governo como um “pacote” neoliberal, argumentando que fazem parte de um modelo de política pública que beneficia fundamentalmente os setores empresariais, torna o mercado de trabalho mais flexível e reduz o Estado, enquanto desempregam vários funcionários públicos em crescimento.

Assim, durante o final de semana passado, mobilizações e assembleias indígenas ocorreram em grande parte do território nacional, apesar do governo nacional ter decidido declarar o estado de emergência, na tentativa de suspender ou limitar o exercício de vários direitos, como a inviolabilidade de endereços, liberdade de trânsito, liberdade de associação e reunião. Com crescentes mobilizações em todos os territórios afetados pela convocação, a resolução foi unânime: uma grande mobilização indefinida em todo o país em rejeição de medidas econômicas e em defesa de territórios indígenas, rios, água, ermo, justiça rádios indígenas, educação intercultural, saúde, transporte e comunidade. 300 cortes de estradas simultâneos foram contados durante diferentes períodos do último sábado e domingo.

Paralelamente, o governo tentou combinar duas estratégias diferentes. Por um lado, a repressão se intensificou sob o argumento eufemístico do uso da força progressiva. Por outro lado, seus interlocutores buscaram desesperadamente o diálogo com os manifestantes, tentando estabelecer propostas de remuneração para os setores mobilizados (empréstimos produtivos a juros baixos, apoio à aquisição de máquinas agrícolas, reconhecimento das autoridades locais). Nada funcionou, e a liderança nacional de Conaie declarou publicamente que o diálogo com o regime está completamente fechado. "Não haverá reaproximação com nenhum representante do Estado até que o decreto que aumente o preço dos combustíveis seja revelado", disseram todos os porta-vozes de maneira homogênea.

O conflito se intensificou em toda a geografia nacional e as unidades militares e policiais foram retidas posteriormente em vários territórios indígenas que foram posteriormente entregues em troca da libertação não oficial de civis detidos. A Conaie, sob o princípio da autodeterminação dos territórios indígenas, também declarou seu estado de exceção e proibiu em suas comunidades a entrada de infiltrados e grupos armados pertencentes ao aparato de segurança do Estado.





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Descida da Serra


Segunda-feira amanheceu mais calma, e os porta-vozes do governo nacional foram à mídia para se felicitar. O número de detentos já adicionou mais de 320 naquele momento. Dos 300 cortes de estradas baixados para 50, o número de mobilizações em diferentes locais do país também diminuiu, o desemprego indígena e as mobilizações urbanas em diferentes partes do país aparentemente estavam em declínio. "A normalidade é gradualmente imposta", disse María Paula Romo, ministra do Interior, por ignorância.

No entanto, a versão indígena era radicalmente diferente. Segundo Jaime Vargas, presidente do CONAIE, "a repressão da força pública permitiu que o movimento se fortalecesse e se coordenasse com suas bases e outras organizações sociais em cada província para avançar em direção à capital".

Apenas algumas horas depois, as mensagens de aviso começaram na capital. A polícia nacional e o serviço de inteligência do Estado detetaram fortes movimentos nas estradas, desde as províncias indígenas da Serra Central até Quito. A reação não poderia ser mais infeliz: o ministro da Defesa, general do Exército em serviço passivo que responde ao nome de Oswaldo Jarrín, ameaçou diretamente os mobilizados:

“Não provoque a força pública, não a desafie ou saberemos como responder ... Essas declarações iluminaram ainda mais o clima dos mobilizados.

Durante todo o dia desta segunda-feira, 7 de outubro, vários contingentes de indígenas chegaram à capital equatoriana e surpreendentemente também a Guayaquil, a segunda cidade mais importante do país. Em vários bairros populares da periferia de Quito, os nativos foram recebidos com atos de solidariedade pela população local, apesar de uma forte campanha de descrédito e racismo posicionada por influenciadores conservadores nas redes sociais. Com as entradas para as cidades altamente protegidas pelas forças policiais - órgãos militares e de elite da polícia nacional -, os confrontos se seguiram por toda parte. Mais manifestantes presos, mais violência em meio aos inacreditáveis ​​apelos ao diálogo e até mesmo um navio-tanque policial ocasional foi incendiado durante brigas.

Diferentes pontos geográficos da capital equatoriana tornaram-se centros de conflito entre mobilizados e policiais. O presidente Moreno anunciou uma rede de televisão do governo que foi adiada três vezes e os jornalistas destinados a cobri-la foram despejados pelos militares do palácio presidencial de Carondelet. As mobilizações populares, tanto em Quito quanto em Guayaquil, foram combinadas com atos de vandalismo estrelando grupos organizados que se aproveitaram do protesto para fins delitivos.

Do mesmo modo, militantes políticos que respondem à tendência correspondente infiltraram-se nas mobilizações e realizaram assaltos a prédios públicos - como a Assembleia Nacional e a Controladoria Geral do Estado -, que foram censurados pelo CONAIE e outras organizações sociais. Em outras províncias, as instituições públicas ocupadas mobilizadas, como a Província ou o Conselho Judicial. As mobilizações foram permanentes nas províncias da Amazônia e na Serra Central, todas com forte ancestralidade indígena.

Às 21 horas de segunda-feira, a tão esperada cadeia nacional finalmente aconteceu. O presidente Lenín Moreno, guardado por seu vice-presidente à direita e seu ministro da Defesa à esquerda, junto com os chefes dos diferentes corpos militares por trás, disse - com algum nervosismo - que o povo equatoriano estava participando de uma tentativa de golpe ligada a um enredo internacional. "O tirano do Maduro ativou seu plano de desestabilização com Correa", disse o presidente equatoriano e insistiu que as medidas tomadas "não têm volta" e que "saques, vandalismo e violência mostram que existe uma intenção aqui". política organizada para desestabilizar o governo e quebrar a ordem constituída, quebrar a ordem democrática”.

Para surpresa dos equatorianos, a cadeia nacional foi transmitida a partir da cidade de Guayaquil, o que implica que o governo deixou o Palácio Carondelet na capital Quito. A estratégia política e comunicacional do governo Moreno, que tem uma credibilidade inferior a 16%, não poderia ser mais equivocada. Cercado pelas forças armadas, o presidente da república fez um chamado confuso ao diálogo em meio a sofismas, no qual reiterou que, sob nenhuma circunstância, o decreto 883 será revisado.

Com a situação no limite, as pessoas mobilizadas começaram a passar a noite em Quito em tendas localizadas em parques públicos, em universidades e coliseus locais de organizações sociais. Os setores sociais solidários com os mobilizados forneceram comida e cobertores aos recém-chegados, os estudantes de enfermagem atendidos ao jornalismo ferido e alternativo tentaram fazer uma cobertura consistente sobre o que e por que o mobilizado exigia. Manifestantes indígenas e estudantes universitários carregavam cartazes e faixas cujo slogan era "nem Correa, nem Moreno", buscando desmarcar a suposta capitalização política das mobilizações. A partir de então, as marchas foram protegidas por guardas indígenas improvisados, mas eficientes. Os infiltrados, membros da polícia secreta ou agentes do correísmo, foram violentamente expulsos das manifestações pelos próprios manifestantes. As ações de vandalismo diminuíram drasticamente.


Um país em transição


Em 10 de agosto, o Equador comemorou 40 anos de democracia. Nesse período, 11 concursos eleitorais foram desenvolvidos, três constituições foram aprovadas - 1978, 1998 e 2008 - e houve uma década de desestabilização política que começou com a queda de Abdalá Bucaram e durou até a chegada de Rafael Correa Poltrona presidencial do Palácio Carondelet.

A década correista estabilizou politicamente o país, embora tenha terminado com a notável decepção da maioria do povo equatoriano e desinstitucionalizou ainda mais o Equador, depois de implementar o domínio do poder executivo sobre os demais poderes do Estado. A última fase de deterioração econômica no país começou em 2014, quando a queda nos preços do petróleo começou a atingir fortemente a economia nacional. O orçamento geral do estado passou de US $ 44,3 bilhões em 2014 para 37,6 bilhões em 2016, e o endividamento público - interno e externo - aumentou de 2,8% do PIB em 2012 para 8,1% em 2016 e 9%. por cento em 2017.

A Conaie foi o motor da resistência da comunidade rural ao longo da década correista. O próprio Correa passou a defini-los como o principal inimigo da chamada Revolução Cidadã, um termo de propaganda com o qual definiu seu período de gestão. Apesar desse papel e tendo protagonizado episódios heroicos como a revolta de agosto de 2015 - fortemente reprimida pelo governo correista -, a CONAIE não levantou a cabeça em sua crise interna, iniciada há uma década e meia durante o curto período de gestão presidencial da O coronel Lucio Gutiérrez, quando decidiu apoiar o governo e ocupar portfólios ministeriais, abandonou seus princípios fundamentais.

No entanto, hoje o Equador está passando por um momento de renovação política emoldurado em um mapa de transições. Com o início dos atuais dias de luta, novos líderes substituíram os líderes históricos do movimento indígena que estavam politicamente exaustos. Nestes últimos dias, uma Conaie combativa e com forte capacidade de mobilização popular, apareceu.

O próprio governo de Moreno, inicialmente apresentado como a continuidade do correismo, definiu-se como um governo de transição, movendo-se em direção a posições neoliberais e entreguistas em relação aos FFMI. Mesmo dentro do governo Moreno, uma transição pode ser vista com a formação de novas figuras políticas que em breve renovarão a expiração da direita equatoriana. Personagens como o vice-presidente da república, Otto Sonnenholzner, o secretário da presidência, Juan Sebastián Roldán, ou o ministro da Economia e Finanças, Richard Martínez, fazem parte dessa regeneração na frente conservadora, em detrimento das lideranças mais clássicas.

Mas agora, e na quinta-feira, 3 de outubro, tudo pode acontecer. O governo ainda está procurando desesperadamente canais de diálogo com o movimento indígena, Lenín Moreno retorna a Quito após fortes críticas de todos os lados depois de se refugiar em Guayaquil, e nas ruas mais de 20 mil indígenas acompanhados pelo tecido de solidariedade social de Quito tomaram o centro da capital