PAIDEIA EDUCAÇÃO
As discussões sociológicas que se fazem no mundo acadêmico numa linguagem acessível.
sábado, 3 de janeiro de 2026
Sobre a série Death Lightning (Como um Relâmpago, em português)
segunda-feira, 8 de setembro de 2025
Virando a página
Quando viramos a página, as tristezas ficam para trás; as alegrias, efêmeras, se diluem, pois estar ali, com aqueles que nos feriram, impõe uma pausa de ressentimento.
Ao mesmo tempo, virar a página traz consigo uma certa nostalgia do que já foi, do que nunca mais voltará, do que se perdeu para sempre.
Na verdade, a página não se vira: apenas nos damos conta de que ela está chegando ao fim. E, diante desse fim que nos aguarda a todos, algumas coisas deixam de ter importância, se é que algum dia tiveram. Para alguns, tiveram, sim: morreram e mataram para defendê-las, como nos lembra o filme Relatos Selvagens. Defender o quê, afinal? E para quê?
quinta-feira, 4 de setembro de 2025
Por que ele tem agorafobia?
Aprendeu a viver sozinho desde a infância. Foi obrigado a lidar, quase naturalmente, com tudo o que lhe era imposto nos aspectos sociais — e, mais tarde, com as tragédias da vida. Tragédias que todos atravessam, em maior ou menor intensidade, e que em nele deixaram a marca do recuo. Passou a observar mais e participar menos.
O que o incomoda é ser convocado a falar, mesmo que seja apenas uma amenidade.
A opinião que pedem não importa; importa apenas que ele esteja ali, preenchendo espaço. E é justamente aí que algo lhe dói: ser arrancado do seu silêncio. Esse silêncio que lhe protege, que é confortável, e que, quando violado, lhe faz querer desaparecer.
Foi então que decidiu: não gosta de gente. Gosto de vínculos. Mas vínculos não se estabelecem com todos, e essa impossibilidade é o que mais pesa.
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
a caixinha do fim
Hoje pagamos a caixinha do fim.
Foi barata.
A morte anda em promoção.
E isso só pode significar uma coisa:
valemos pouco.
Muito pouco.
Penso sempre nisso:
tudo virou nada.
Virou memória sem ouvidos,
fotografia que ninguém quer rever.
Ninguém vê mais fotografia.
Todos tiram,
mas não para ver
apenas para mostrar.
Às vezes, mesmo sendo profundamente triste, é bom lembrar da caixinha.
Ela confirma o nada que é nosso,
e que é grande
para quem o viveu.
Talvez seja melhor assim.
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
dois homens e um tempo
Passou o fatídico dia dos
pais. Fatídico… porque, quando o pai já não está, é um dia que pesa. Um dia de
ausência. Um dia que lembra o que falta. E, ao mesmo tempo, a gente gosta de
ver os outros felizes com seus pais, em suas homenagens. Olhando a alegria deles, a gente sente, com mais clareza,
o vazio que ficou. A vida é isso, cheia dessas contradiçõees de sentimentos opostos...
Tenho aqui uma foto. Meu
pai e meu tio. Dois homens do ABC das fábricas. Pais com erros e acertos
tipicamente humanos. Ao longo das suas histórias, se afastaram, se encontraram,
se acovardaram. Sem embrutecer, se humanizaram.
Nós, que assistimos e
fomos criados por essas pessoas, conhecemos seus erros e acertos. Tentamos
aprender com eles. Agir diferente. Construir histórias diferentes. Mas, como
todos, nem sempre acertamos.
Olho para essa foto e
gosto dela. Tem cara de época. De gente de uma época. Um Brasil muito do ABC, abecedino,
como eu costumo dizer.
domingo, 3 de agosto de 2025
Entre sacolas e perguntas
Ela nunca imaginou que a vida pudesse ser assim. Num dia, estava na televisão, falando com voz firme, recebendo olhares atentos e respeito. No outro, carregava sacolas pesadas, apertada num ônibus lotado, atravessando bairros onde ninguém parecia querer estar.
Viver na periferia nunca fora problema, sempre morou ali. Mas aquele lugar era diferente. Não havia comunidade, só vizinhança. Gente que passava os dias evitando o outro, como se o afastamento fosse uma forma de se proteger.
No supermercado, a jovem no caixa repetia a mesma pergunta toda semana: “Foi à praia?” ou “Vai à praia?”. Talvez aquela fosse a maneira que encontravam para suportar o verão, falando da praia dos outros. Ou talvez porque ela viesse de uma cidade onde a praia não está tão perto, onde o ritmo da vida é outro, e essa pergunta parecia não fazer sentido.
Desde que perdera os pais, vivia num limbo que parecia não ter fim. Não conseguia se reencontrar, nem sabia se conseguiria. Tudo parecia pela metade, os planos, as conversas, até ela mesma. Como se a vida tivesse seguido em frente sem uma peça essencial, e ela tivesse ficado para trás, silenciosa, quase invisível.
Quis escrever sobre tudo isso, mas as palavras não saíam. Apenas pensamentos difusos. Assim eram seus dias, tentativas desconexas de colocar algo em ordem, fragmentos que nunca se juntavam.
E no meio desse vai e vem, dos sacos pesados e das perguntas repetidas, ela seguia tentando encontrar um canto onde pudesse, finalmente, descansar...ter algum hiato mental.
quinta-feira, 26 de junho de 2025
Alain Finkielkraut - a derrota do pensamento
Embora escrito nos anos 1980, o livro mantém sua relevância no debate contemporâneo, especialmente diante da expansão das redes sociais, da crise da leitura e da polarização cultural. Finkielkraut não é um autor consensual, muitos o acusam de elitismo ou conservadorismo.
Alain Finkielkraut, nascido em Paris em 1949, desenvolve neste livro um apaixonante debate sobre a subordinação do pensamento à barbárie generalizada, que acabou por prevalecer, seja na forma do fanatismo, seja sob a capa mais insinuante do culto ao espetáculo e da valorização da eterna adolescência.
segunda-feira, 2 de junho de 2025
Aqui é trabalho, meu filho!
Meu pai era são-paulino fervoroso. Quando faleceu, levou consigo nossas camisas do São Paulo. Ele sempre fez questão de presentear a mim e aos meus irmãos com camisas do São Paulo quando éramos crianças. Tenho ainda comigo as lembranças dele me acordando de madrugada para assistirmos à final do mundial em Tóquio. Foi um momento marcante em nossa história.
Sempre considerei o São Paulo FC como parte importante da nossa história familiar. Quando perdi meus pais anos atrás, assistir aos jogos tornou-se uma forma de reviver as memórias que agora só existem em nossa mente.
Como socióloga e já adulta, comecei a analisar a história do meu pai, um homem negro e metalúrgico do ABC, e sua paixão pelo São Paulo FC. Isso se tornou uma maneira de juntar os pedaços da minha própria identidade após a sua morte.
Nesse processo, me deparei em pensamento com a famosa frase de Muricy Ramalho: "Aqui é trabalho, meu filho!" Essa expressão era repetida por nós em família para enfatizar que tudo o que tínhamos, embora não fosse muito, derivava do trabalho árduo. De maneira inconsciente, sabíamos que o trabalho e o esforço eram os pilares de nossa vida social, seja na política, no cotidiano ou no esporte. Tal como Lukács, Muricy e meu pai reproduziram em seus exemplos aquilo que define a forma própria do ser humano, o trabalho. Através de sua ação intencional e coletiva
Assim como Muricy Ramalho, meu pai e a maioria da população brasileira entendem, mesmo que de forma inconsciente, que o trabalho, o esforço e a disciplina são fundamentais em todas as esferas da vida social.
quarta-feira, 2 de abril de 2025
Quando a normalidade nunca voltou
Meu pai, aquele homem inteligente, de letra bonita, começou a mudar. Lembro do seu adoecimento, de como ele foi definhando aos poucos, de como o perdíamos fragmento por fragmento. Ele começou a esquecer das coisas, fazia perguntas sem sentido, tinha ações confusas e estranhas. Havia um desleixo consigo mesmo, uma espécie de desistência. E quando desistimos de nós, nos corroemos mais rápido. A vida passa depressa, e o sofrimento excessivo parece acelerar o tempo. Tenho a sensação de que envelheci muito desde então, como se sua morte tivesse aberto em mim uma consciência de uma vida vivida em poucas horas.
Numa tentativa de reconstruir as memórias que perdi, sempre busco as coisas que escrevi sobre ele. A escrita sempre foi minha companheira, desde pequena. Foi meu pai quem, aos sete anos, me deu um diário com cadeado e capa azul, onde eu registrava minha rotina e meus segredos infantis. Guardei aqueles diários por anos, mas os perdi com as mudanças constantes — de uma casa para outra, de um país para outro. E depois que meu pai faleceu, minha mãe também partiu. Ficamos sozinhos, meu irmão e eu. Tínhamos que nos mudar para uma casa menor. Tantas coisas. Tantas memórias. Tínhamos que dividir, guardar em diferentes locais. E assim, as coisas foram se perdendo. Também as memórias
Tal como a memória, eles se foram. Talvez por isso eu escreva tanto agora: numa ânsia de recuperar o que perdi, de fugir da solidão da alma que sinto. Mesmo em tempos em que estava cercada de gente, ainda me sentia sozinha.
Quando ele faleceu, escrevi isto:
E nos dias em que as aflições parecem não ter fim, percebemos que, por mais difícil que pareça, continuar é necessário. A vida sempre vem em nosso socorro com todas as suas ninharias habituais, suas restrições, suas pequenas alegrias. Aos poucos, vamos despertando para novas sensibilidades e assim seguimos.
Nos apoiando naqueles que são nossos referenciais de potencial humano: os amigos, as leituras...
Indivíduos que nos rodeiam, que nos talham e que também nos salvam. No empenho cotidiano e mútuo em estabelecer relações mais humanas, são eles que nos dão forças e nos encorajam a seguir."
Um mês apos a sua morte escrevi para uma amiga:
sábado, 8 de março de 2025
Coração Selvagem
Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão
O meu som e a minha fúria e essa pressa de viver
E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza