terça-feira, 13 de junho de 2023

13 de Junho, dez anos depois

O texto a seguir foi escrito em junho de 2013, no auge das manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Publico este relato em meu blog com o intuito de manter viva a percepção daquele momento político e social brasileiro.

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Acabamos de chegar da manifestação na Avenida Paulista e retomamos o cenário que presenciamos exatamente há uma semana, quando todos estavam lutando por um objetivo comum: a redução da tarifa. E não, não é somente por 20 centavos; na verdade, é contra a violência que o capital promove diariamente. Tomamos bombas, tivemos enfrentamentos com a tropa, mas vimos uma juventude disposta a lutar.

Nas últimas manifestações, dada a comoção nacional ante os abusos da força policial, o que notamos foi uma mudança de paradigma, momento no qual a direita se colocou e claramente se apropriou de um senso comum, enfatizando uma luta ufanista, um nacionalismo exacerbado. O que vimos hoje foi um ato cívico fascista disputando pautas diversas e conflitantes. Dentre elas, o fim da corrupção e a redução de impostos, sem considerar as bases que conduzem a tais contradições e desigualdades. Por outro lado, partidos políticos com histórico de luta (ainda que possuam limitações para o que pensamos e queremos de uma esquerda) foram hostilizados, tiveram bandeiras queimadas e foram expulsos de um ato que deveria trazer à baila um objetivo comum e que agora oportuniza apenas a universalização de interesses particulares, os interesses de uma extrema direita em sua retomada.

Por fim, após a expulsão, o que acompanhamos foi um movimento da "esquerda" em uma tentativa de unificação combativa a este pujante levante de uma juventude despolitizada e dispersa, que aparenta reproduzir um discurso moralizante, que se indigna, mas não apregoa mudanças reais e efetivas.

Não há pressa política e nem espaço para isto na imediaticidade. Mas, para aqueles que anseiam uma transformação nas bases sociais, se faz urgente repensar suas ações e posições diante de tudo que estamos vivenciando, sem distanciamentos (teoria e prática), retomando as questões concretas e buscando respostas na história.

Caroline Rodrigues  
Elaine C. S. dos Santos  
Flavia Bigai

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Para os que virão

Como sei pouco, e sou pouco,

faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Thiago de Mello

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

(Poemas Inconjuntos, Alberto Caeiro - heterónimo de Fernando Pessoa)

terça-feira, 2 de agosto de 2022

A minha mãe

Quando ela acabou, foi colocada na terra

Flores nascem, borboletas esvoejam por cima…
Ela, leve, não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!

Bertold Brecht

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Fernando Pessoa


Eu amo tudo o que foi, 
Tudo o que já não é, 
A antiga e errónea fé, 
O ontem que dor deixou, 
O que deixou alegria 
Só porque foi, e voou 
E hoje é já outro dia.
A dor que já me não dói, 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Haiti: a ocupação sem fim

 

Será que a chamada "comunidade internacional" tropeçará novamente na mesma pedra do humanismo que nega o ser humano, a justiça controlada à distância e a paz nos cemitérios?



Lautaro Rivara é sociólogo, jornalista e analista internacional. 


Um jornalista de uma importante agência de notícias internacional pergunta, com aparente boa fé: "E quem você acha que deveria resolver os problemas dos haitianos?" Lembro-me então de um antigo exercício de lógica, que recomenda transpor os termos ou os assuntos de um enunciado para pesar sua razoabilidade. A questão, por si só, revela seu ridículo, apenas por aplicá-la a qualquer outro país: quem deveria resolver os problemas dos Estados Unidos, por exemplo, um país que viu seu Capitólio ser assaltado por hordas de trumpistas? E quem deve resolver os problemas na França, abalada pelas espasmódicas e massivas manifestações dos chamados “coletes amarelos” desde outubro de 2018, com uma participação estimada, até o momento, de mais de 3 milhões de pessoas? Ou os da Inglaterra, cujo projeto tumultuado de desligamento europeu incluiu, entre outros problemas, o fechamento do aparentemente exemplar Parlamento britânico em agosto de 2019, por decisão do primeiro-ministro Boris Johnson? Certamente poderíamos concordar que os responsáveis pela solução de todos esses (e ainda mais graves) problemas nacionais são, respectivamente, os americanos, os franceses e os britânicos. Por que então, não podemos responder com a mesma naturalidade cada vez que o Haiti entra, excepcionalmente, na agenda global? Por que é necessário afirmar e reafirmar o óbvio, ainda mais considerando que este povo é independente há 217 anos? 


*** 

O Haiti possui vários recordes em termos de intervencionismo. De todas as operações de reconquista colonial sobre as nascentes repúblicas latino-americanas e caribenhas que obtiveram sua independência no início do século 19, nenhuma foi tão massiva quanto a organizada em 1801 por Napoleão Bonaparte e seu cunhado Emmanuel Leclerc, comandando mais de 43.000 homens e a maior frota da época. Tratava-se, então, de recuperar a rebelde "Pérola das Antilhas", cuja economia escravista de plantation significava para a metrópole francesa cerca de um terço de sua receita. Essa parte da ilha foi, na época, presa do fervor revolucionário que daria origem, em 1804, ao nascimento da República do Haiti.


Como correlato dessa liberdade pioneira, o Haiti também teria o triste privilégio de ter sofrido a primeira dívida externa, imposta por uma frota de guerra francesa ancorada na baía de Porto Príncipe em 17 de abril de 1825. Em uma daquelas típicas cenas “com as pernas para o ar”, como diria Eduardo Galeano, os senhores de escravos exigiam dos ex-escravos indenizações por danos, obrigando a nação a pagar uma soma, escandalosa para a época, de 150 milhões de francos. Mas nem todos esses "recordes" teriam a França como protagonista. Das centenas de ocupações, invasões, desembarques e pirataria dos EUA neste hemisfério - incluindo a conquista de grande parte de seu próprio e atual território, confiscado do México entre 1846 e 1848 - nenhuma foi tão extensa quanto a ocupação dos Estados Unidos, presente no Haiti com seus fuzileiros navais por 19 longos anos entre 1915 e 1934. 

Podemos citar também a participação de organizações supranacionais. De todos os países intervencionados por missões civis, policiais ou militares das Nações Unidas, nenhum viu tantos contingentes estrangeiros tocarem o território nacional, pelo menos nas últimas décadas: um total de 9 missões de diferentes signos tiveram sucesso nos últimos 28 anos. Além disso, nesse período, o Haiti passou apenas dois anos (2002 e 2003) sem uma presença estrangeira formal, e continua até os dias atuais, com a presença do BINUH (o Escritório Internacional das Nações Unidas no Haiti, para o seu acrônimo em francês) e pela ainda pendente aplicação ao Haiti do Artigo VII da Carta da ONU que presumivelmente rege os casos de "ameaças à paz" ou "atos de agressão" e aponta para o Conselho de Segurança como uma espécie de autoridade final no país. Mas ainda é preciso citar outro caso de intervenção estrangeira que costuma passar despercebido: o onguismo colonial. Segundo vários estudos, estima-se que haja 12.000 ONGs presentes no Haiti, com a república caribenha atingindo a maior concentração per capita do mundo, o que lhe valeu o apelido sorridente de "república das ONGs" ou, pior ainda, "HaitONG". A grande maioria dessas organizações é, naturalmente, de origem estrangeira, ou pelo menos simplesmente subsidiárias locais de grandes agências de cooperação internacional, como a Comissão Europeia ou a norte-americana USAID. A personificação do estado e de suas funções, a cooptação de líderes locais de organizações territoriais e a disseminação de todos os tipos de acusações e teorias coloniais são alguns de seus resultados mais notórios. 

*** 

Em 23 de novembro de 2018, tivemos o triste privilégio de conhecer o último desdobramento operacional da Missão das Nações Unidas para o Apoio à Justiça no Haiti (MINUJUSTH), sucessora da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (a muito mais conhecida MINUSTAH)



Bloqueados e incomunicáveis em Porto Principe, incapazes de retornar à nossa cidade rural em Montrouis, nós literalmente colidimos com os Capacetes Azuis a apenas dois quarteirões da casa onde uma família generosa nos abrigava enquanto acompanhamos as mobilizações e passamos pela turbulência que havia bloqueado a estrada. Eram os ecos da insurreição popular de julho de 2018 contra a “recomendação” do Fundo Monetário Internacional (FMI) de eliminar os subsídios aos combustíveis. 


Dificilmente poderíamos fazer justiça a essa cena. Num ano como aquele, turbulento, dramático, heroico, em que o povo haitiano saiu às ruas quase diariamente com centenas de milhares de pessoas, as forças pretorianas da ordem internacional passaram a restringir o legítimo direito de rebelião deste povo que sempre tem uma última palavra, um último gesto, uma última revolta tirada do fundo de reservas morais aparentemente inesgotáveis. Imagine a avenida mais importante ou emblemática da capital de cada um de seus países. Agora imagine-o ao longo de suas centenas de metros, ocupado, em cada esquina, por um posto de controle de um contingente militar de um país diferente. Assim, puderam identificar ali o canto dos paquistaneses, dos brasileiros, dos nepaleses, dos croatas, dos filipinos, dos argentinos, dos norte-americanos, dos franceses. Todos bem armados e equipados, acompanhados por veículos blindados e carros hidrantes, diante de um povo em choque, de olhos bem abertos, colados nas fachadas dos prédios como se fosse um boxeador contra as cordas. Agora contam com 23 esquinas, pois 23 países foram os que passaram a ocupar, simultaneamente, um povo pacífico e desarmado, sem forças militares e sem histórico de agressão a terceiras repúblicas - muito pelo contrário, com uma longa história de solidariedade e gestos desinteressados para países tão diferentes como a Colômbia, a República Dominicana, os Estados Unidos ou a Argentina. A mesma coisa aconteceu, não uma, mas centenas de vezes na Avenida de Delmas, o equivalente exato, no Haiti, de cada uma dessas largas avenidas da capital: uma rua que corta longitudinalmente a área metropolitana, a partir da Baía de Porto Príncipe para o distrito de Pétionville, transformado na trincheira sem fim das forças multilaterais de ocupação.




Fonte - Haiti tem série de protestos intensos desde 2018 - 
ORLANDO BARRÍA/EFE - 14.02.2021


É fácil refutar os argumentos intervencionistas, quando procuram justificar-se valendo-se do arsenal conceitual do antigo colonialismo que todos conhecemos. Quando se referem à "selvageria" das tribos "bárbaras"; ao caráter "pré-lógico" das mentalidades não ocidentais; ao “paganismo” dos povos “animistas” e “fetichistas” que devem ser evangelizados com cruzes e espadas; à irredutível "animalidade" dos negros e afrodescendentes que talvez tenham alma; à "ociosidade" e à "preguiça congênita" de sujeitos que definham sob o sol dos trópicos; à "ingovernabilidade" e à necessidade de proteger as sociedades "recém-nascidas" para uma vida independente; às "vantagens comparativas" de quem parece condenado pela providência a vender alimentos e minerais para importar veículos e satélites. Mas é muito mais difícil lidar com os argumentos intervencionistas contemporâneos, tanto mais elaborados e sofisticados, que já não dispensam o apelo cínico, mas sincero, às prerrogativas dos mais fortes e ao direito de conquista. Tanto a MINUJUSTH como a MINUSTAH foram justificadas no seu tempo por uma série de pleonasmos que, embora já fizessem rir o mais inventivo dos nossos escritores, não deixaram de ser menos eficazes: o "intervencionismo humanitário", a "responsabilidade de proteger", o " princípio da não indiferença ", ou" a salvaguarda da segurança nacional dos Estados Unidos "eram alguns dos seus álibis. Essas forças de ocupação permaneceram no território nacional por 15 anos, o equivalente a três mandatos presidenciais plenos. Totalmente abolidos foram os antigos e presumidos pilares da ordem jurídica internacional, a saber, o princípio da soberania e o direito à autodeterminação das nações. 

*** 

Seria extenso e também ocioso fazer um balanço completo do equilíbrio dessa intervenção: jornalistas, acadêmicos, organizações de vítimas, movimentos de mulheres e feministas já o fizeram de maneira brilhante e enfática. Mas talvez possamos citar: políticas sistemáticas de violência sexual, que incluíram abusos, pedofilia, estupro e a participação dos Capacetes Azuis em redes de prostituição e tráfico. A perpetração de vários massacres em alguns dos bairros mais populosos da área metropolitana, como o, conhecido mundialmente, que ocorreu em Cité Soleil: o resultado dessas escaramuças foi o assassinato de centenas de jovens, o aniquilamento de organizações inteiras e a desmobilização de bastiões de resistência popular e organização comunitária onde agora florescem organizações criminosas, gangues armadas e um incipiente tráfico de drogas. E, claro, um dos maiores crimes desses mais de dois séculos de intervencionismo ocidental no Haiti: a introdução de uma epidemia de cólera pela MINUSTAH despejando um caminhão de dejetos fecais com o vibrião da doença em um afluente do rio principal. do país, o que causou vários milhares de mortos e mais de 800 mil infectados. 

Os pedidos de reparação e justiça das vítimas colidiam com a inconsistência das Nações Unidas que interpretam sua supranacionalidade como supralegalidade, assumindo sua “culpa”, mas não sua “responsabilidade” em termos jurídicos. Enquanto escrevemos isto, um novo terremoto político sacode o país: o assassinato do presidente de fato Jovenel Moïse na madrugada de 7 de julho em sua residência privada em Pèlerin. Mais uma vez, com uma realidade nacional sobredeterminada do exterior, e com um crime, internacionalizado, que envolve 28 mercenários e paramilitares de nacionalidade estadunidense e colombiana. Diante do vácuo de poder gerado, e induzido pelo próprio Ocidente, ao apoiar um regime como o de Moïse, que um ano e meio atrás havia consumado o colapso da ordem democrática - sem Parlamento, sem eleições, sem primeiros-ministros legais e com seus mandato. constitucional expirado-, vários poderes e organizações estão agora posicionados no mesmo caminho de intervencionismo sem fim. 

A Colômbia de Iván Duque, que participa do próprio assassinato com soldados aposentados de suas Forças Armadas, insta a Organização dos Estados Americanos a intervir peremptoriamente na ilha. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, está disposto a "ir em auxílio do Haiti", enquanto o Departamento de Estado confirma o envio de agentes do FBI e da Agência de Segurança Nacional. O presidente da vizinha República Dominicana, Luis Abinader, está acelerando os planos de construção de um muro de fronteira que divide a ilha de Hispaniola. Ao mesmo tempo, o Conselho de Segurança das Nações Unidas se reúne, a portas fechadas, tendo o Haiti e sua crise como ponto central de sua agenda. Será que a chamada "comunidade internacional" voltará a tropeçar na mesma pedra do humanismo que nega o ser humano, a justiça controlada à distância e a paz nos cemitérios? 


Será que assumirá desta vez, perante uma nova e eventual intervenção, a sua responsabilidade no extermínio de conta-gotas, no caos induzido, na violência sexual sistemática e na propagação de epidemias? Os Estados membros da ONU e seu Conselho de Segurança apoiarão, sob cálculos mesquinhos ou argumentos francos, uma nova guerra unilateral desse tipo ou qualquer de suas variantes concebíveis? 


Mais uma vez, e pela enésima vez, a espada de Dâmocles de ocupação sem fim paira no ar.






quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Amílcar Cabral. os colonialistas nos fizeram deixar nossa própria história.



Ignorar o passado nos impede de saber lidar com o presente. Não queremos exploração nem aqui, nem ali, tampouco pelo próprio povo negro.

Temos que nos defender de tudo: imperialismo, colonialismo, colonialismo interno.

Não temos liberdade até hoje.

Contamos a história de um ponto de vista.

Nossa própria cultura, baseada em nossos valores.

O povo português não é nosso inimigo; nós lutamos contra um sistema.

Economia planejada.

Economia que alimenta o povo.

A teoria é uma arma - o marxismo não era seu aporte.

Ibn Khaldun.

Queria acabar com o estado colonial.

Reformar a história dos opressores.

Educar os africanos para se preparar para o futuro.

Em 1973, foi assassinado... mataram um líder.

Unidade como meio para lutar.

A realidade existe independentemente do homem (p. 21).





domingo, 2 de agosto de 2020

A necessidade da revolução democrática para uma nova ordem social



Estamos diante de uma gravíssima situação nacional. As esquerdas conservadoras, ao não compreenderem ser o próprio capital o agente da demolição nacional, não elegem os trabalhadores como eixo da transformação socioeconômica necessária. É preferível a derrota eleitoral com os trabalhadores humilhados e miserabilizados pelo desmonte neoliberal, do que o abraço com a burguesia criadora deste pandemônio neocolonial que nos avassala. É preciso abrir caminhos para quebrar o círculo vicioso das derrotas e desmanches sucessivos.

São muitas as variantes de democracia rolando na praça. 

A finada Nova República, na fase final, experimentou o duopólio PT x PSDB, cujo neoliberalismo social pretendeu conviver com o melhorismo nos marcos da fúria nacional, sob batuta mundial, do novo capital financeiro. As burguesias vetaram essa democracia melhorista, com ajuda substantiva dos gringos. Puseram no poder a ultradireita, adepta da democracia restritíssima da autocracia sob jugo plutocrático banqueiro.

A experiência de construção de um capitalismo melhorado sob o capital financeiro faliu. Aqui e no Chile, veja o que nos espera. Os marxistas brasileiros já haviam descoberto, nos anos 60, a impossibilidade, em nossa particularidade histórica - assim como de todas as ex-colônias ibéricas -  de democracia capitalista e soberania econômica e política nacional. Nossas burguesias nunca quiseram isso. Somente a expansão, o salto democrático sob a égide dos interesses das maiorias trabalhadoras nos levará à estabilidade democrática e à plena soberania, com cidadania plena do trabalho frente ao capital.

Isso se chama revolução democrática. 

Infelizmente, nenhuma das esquerdas conservadoras, da mais à menos civilizada, pensa assim.
Ou seja, ainda estaremos por longo tempo sujeitos aos sucessivos desmanches promovidos pela contrarrevolução permanente advogada desde sempre por de nossas classes proprietárias e seus amos. Sem uma poderosa força da democracia revolucionária não quebraremos o encantamento que nos prende à miséria, à dependência neocolonial e à batuta da contrarrevolução.

Hoje, todas as forças da democracia conservadora, do derrotado melhorismo mais civilizado até a antidemocracia no poder se organizam, nestes instantes, para disputar a divisão do orçamento público nas próximas eleições, todas elas solidárias com a alienação social e econômica dos trabalhadores como resultado das unânimes reformas capitalistas promulgadas pelo congresso, por iniciativa do executivo. 

Todas as forças da democracia conservadora estão unidas em torno de sua nova democracia, dessas reformas exclusivas pró-capital, forma de criar a inserção neocolonial da nação, ou seja, a destruição da nação e sua transformação em espaço de regência de classes burguesas neo-vassalas do novo capital financeiro, forma específica de refeudalização capitalista da reprodução social. Sua nova democracia pressupõe a expulsão dos trabalhadores da arena socioeconômica e política em prol daquilo que para todos é pressuposto estratégico, as reformas capitalistas exclusivas dos interesses do capital e a inevitável constrição da democracia ao mínimo necessário para o livre negócio dos blocos políticos da ordem. 

A liofilização da ultradireita antidemocrática agora interessa para a divisão do orçamento público, embora esta força política ainda permaneça sendo fonte vital dinâmica das reformas nacionais necessárias ao capital e sua arquitetura mundial neoliberal. 

Os trabalhadores continuam, desse modo, vítimas do círculo vicioso das inevitáveis derrotas sucessivas e dos subsequentes desmanches de suas conquistas em ciclos crônicos de repressão e violência institucional necessários para mantê-los ordeiros e disciplinados em sua avançada miséria e desemprego, em sua acrescida impotência política.

Texto de Paulo Lima 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Gramsci para 2020

Toda manhã, ao acordar mais uma vez sob o manto do céu, sinto que para mim é o primeiro dia do ano.

Por isso odeio estes anos novos a prazo fixo, que transformam a vida e o espírito humano em uma empresa comercial, com sua prestação de contas, seu balanço e suas previsões para a nova gestão. Eles fazem com que se perca o sentido de continuidade da vida e do espírito. Termina-se por acreditar a sério que entre um ano e outro exista uma solução de continuidade e comece uma nova história; fazem-se promessas e projetos, as pessoas se arrependem dos erros cometidos, etc. É um equívoco geral que afeta todas as datas.

Dizem que a cronologia é a ossatura da história. Pode-se admitir que sim. Mas também é preciso admitir que há quatro ou cinco datas fundamentais, que toda pessoa conserva gravadas no cérebro, datas que tiveram efeito devastador na história. Também elas são primeiros dias de ano. O Ano Novo da história romana, ou da Idade Média, ou da era moderna. Elas se tornaram tão presentes que nos surpreendemos a pensar algumas vezes que a vida na Itália começou em 752, e que 1490 ou 1492 são como montanhas que a humanidade ultrapassou de um só golpe para entrar em um novo mundo e em uma nova vida.

Com isso, a data converte-se em um fardo, um parapeito que impede que se veja que a história continua a se desenvolver de acordo com uma mesma linha fundamental, sem interrupções bruscas, como quando o filme se rompe no cinema e se abre um intervalo de luz ofuscante.

Por isso odeio o ano novo ano. Quero que cada manhã seja um ano novo para mim. A cada dia quero ajustar as contas comigo mesmo e renovar-me. Nenhum dia previamente estabelecido para o descanso. As pausas eu escolho sozinho, quando me sinto embriagado de vida intensa e desejo mergulhar na animalidade para extrair um novo vigor.

Nenhum disfarce espiritual. Cada hora da minha vida eu gostaria que fosse nova, ainda que vinculada às horas já passadas. Nenhum dia de júbilo coletivo obrigatório, a ser compartilhado com estranhos que não me interessam. Só porque festejaram os avós dos nossos avós, etc., teremos também nós de sentir a necessidade de festejar? Tudo isso dá náuseas.

Espero o socialismo também por esta razão. Porque mandará para o lixo todas estas datas que já não têm nenhuma ressonância em nosso espírito. E se o socialismo vier a criar novas datas, ao menos serão as nossas e não aquelas que temos de aceitar sem benefício de inventário dos nossos ignorantes antepassados.

Turim, 1º de janeiro de 1916.

* Tradução ao português tomando por base o texto em Espanhol Tomado do Livro “Bajo la Mole - Fragmentos de Civilización”, de Antonio Gramsci. Editorial Sequitur, Págs. 9-10.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A Tragédia de Paraisópolis e a Indiferença diante da Barbárie



A única novidade desse domingo era ser o 1° de dezembro, do assombroso ano de 2019, que parece ser 1808, 1850, ou qualquer ano imperial, escravocrata em que a democracia esteve por um fio.

Cedo as primeiras notícias de que houve mais uma tragédia na segunda maior favela de São Paulo, Paraisópolis, ali colada aos bacanas do Morumbi, que enfeia a paisagem, com a imagem da exclusão. 

A tensão aumenta a cada novo vídeo,  a narrativa da Polícia Militar, de que perseguiu dois fugitivos e que estes provocaram o tumulto, se dissolveu em horas, com as imagens dos celulares dos sobreviventes da tragédia. 

A intensa troca de telefonemas e de mensagens, com o Ouvidor da Polícia, com integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP, com advogados e com jornalistas vai alterando a percepção da enorme gravidade, o clamor contra impunidade aumenta.

A noite caí, a nota da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP e a fala da Presidente da Comissão têm grande repercussão, mãos notas de entidades de Direitos Humanos, reforçam a necessidade de exigir rigorosa apuração.

O fechar de domingo parece certo, entretanto somos chamados para ação, os corpos das vítimas estão sendo liberados pelo Instituto Médico Legal (IML) sem a certeza de que as perícias foram feitas com os detalhes necessários para esclarecimentos das mortes.



Fonte - google 


Somos levantados para entrar na segunda, em  pleno IML, ali é o último e mais doloroso recanto da tragédia, as famílias e familiares são chamados para reconhecer e levar seus mortos. 

Chegando lá um grupo de jornalistas ávidos por um fiapo de história,  mesmo com a gigante tragédia ali, aos seus olhos. Deram com a falta de vontade do IML para apenas dizer como foram feitas a perícia, ainda que questionados por nossas entidades legítimas, OAB e CONDEPE,  resposta padrão,  amanhã voltem aqui, pois não tem ninguém responsável que possa falar.

Encontramos as últimas famílias, o choro desesperado de um senhor, nos chama a atenção, corremos para acolhê-lo, dar água e conversar.

Rapidamente nos conta que acabou de reconhecer seu filho, ainda que "não nasceu de mim, mas era meu, apesar de descender de pai japonês, diziam que parecia comigo". Repete que ele faria 21 anos em janeiro. 

Minutos depois uma moça grita desesperada, viu uma foto do rosto e braço tatuado de sua prima/irmã, mal completara 18 anos, estava desgarrada, não tinha pai e nem mãe, era criada pelo tio, que chega depois.

Mesmo com insistência, não somos atendidos,  a veia de advogado fala mais alto, de próprio punho registramos nossos protestos pela recusa do IML em fornecer informações precisas e essenciais ao caso.

A comoção da madrugada segue uma dor e um resto de noite insone, como dormir diante de tão dilacerante tragédia, pensar naqueles jovens encurralados numa viela estreita, numa correria insana, acabam por morrer, naquilo que seria apenas um baile funk, de celebrar a alegria, dos mais simples, periféricos e pobres de um sociedade que os excluiu.

A vida acorda mais triste e o peso de nossas responsabilidades aumenta a cada dia, a pela dignidade humana, pelos direitos fundamentais e humanos, que o Estado chegue aos mais pobres, não por balas, mas por inclusão e paz.

A utopia nossa que dias/madrugadas assim, é  posta em xeque. 

*Arnobio Rocha - Coordenador do Núcleo de Ações Emergenciais e de Defesa de Direitos Ameaçados, da comissão de direitos humanos da OAB/SP*