quarta-feira, 26 de junho de 2019

Protestos contra Lenin Moreno e a exploração petrolífera no Equador



O petróleo representa 40% das exportações do Equador, neste sentido toda a região onde existe a possibilidade de exploração são áreas de frequente conflito. 

Nos últimos dias as comunidade indígenas equatorianas da etnia Waoranis estão realizando protestos no país exigindo que o atual presidente Lenin Moreno pare com a extração petrolífera na região da reserva ambiental Yasuní ITT.

Estão também recolhendo assinaturas  que já chegam a 122 mil e esperar alcançar as 500 mil até julho como um mecanismo de pressionar o governo a cumprir o que foi votado na Consulta Popular do dia 04 de fevereiro de 2018, quando a maioria da população (67,6%) votou "SI" para proteger Yasuní e não ampliar as fronteiras de exploração.



Fonte - twitter @WaoResistencia

domingo, 17 de março de 2019

NA PRÓPRIA PELE - O CASO STEFANO CUCCHI


O filme é uma bandeira social 


O filme italiano "Na própria Pele", disponível na plataforma Netflix, relata de forma bastante dramática a história de Stefano Cucchi, preso em 2009 por porte ilegal de drogas, um crime aparentemente comum, uma vez que ele se declara usuário e em tratamento. Stefano morre devido aos maus tratos causados pela violência policial.

Sua família, que não conseguiu vê-lo na prisão, toma a frente da batalha judicial em busca da verdade sobre o que teria acontecido com o filho e irmão durante os dias na prisão. É possível perceber a diferença entre o tratamento policial na Itália e no Brasil. No documentário, nota-se que há alguns policiais preocupados com o estado do jovem de 31 anos, que vai se agravando dia após dia, enquanto outros não se importam, assim como os médicos e o próprio advogado do Estado, que, a princípio, parece não se atentar para a forma como Stefano aparece no primeiro julgamento, repleto de nódoas e com duas costelas quebradas.

O filme é muito bem feito e envolve nossas emoções junto com o drama de Stefano, que quer ter uma vida comum e familiar, mas se depara com as injustiças perante um sistema todo moldado para que ele não consiga. Por outro lado, sua família sofre com ele e tenta colocá-lo, por meio do afeto, em uma condição melhor, mas, ao acreditar na justiça, percebem tardiamente que entregaram o filho à morte, mesmo que só tenha passado uma semana.


Imagem do documentário

A falta de confiança em todos torna Stefano alguém que aguarda que lhe apresentem um desfecho para a própria vida, já que ele não revela aos médicos e advogados quem o espancou. Segundo o documentário, a morte de Stefano foi causada por espancamento policial da "Arma dos Carabineiros" (ala da polícia italiana) em outubro de 2018. O caso teve uma reviravolta, já que alguns carabineiros assumiram a violência em uma espécie de ação combinada, deixando Stefano deformado - segundo o jornal El Pais.

Stefano foi encontrado magro, indicando desnutrição, com duas costelas quebradas e o rosto todo deformado, após ter passado uma semana na prisão suplicando que lhe dessem suas pastilhas para epilepsia. Sua irmã foi quem colocou o debate no topo das discussões mais controversas na Itália, quando assumiu a dependência química do irmão como uma questão de saúde pública e a brutalidade policial como algo a ser combatido e denunciado. Isso tornou o caso um exemplo para que não acontecesse mais.

Trata-se de um filme que é também uma bandeira social. Mesmo passando-se na Itália, não nos faltam casos em todas as sociedades de mortes e abusos em prisões. Vale ressaltar que o filme nos mostra a complexidade humana, onde nem tudo é bom ou ruim. Existiram pessoas preocupadas com Stefano, e mesmo após sua morte, alguns policiais denunciaram seus colegas por sentirem vergonha do que haviam feito. Como brasileira, é triste ver o filme de forma naturalizada, já que, segundo os dados divulgados entre 2014 e 2017, pelo menos 6.368 homens e mulheres morreram sob a custódia do Estado, seja por doenças que infestam as penitenciárias, homicídios ou suicídios - é a velha máxima que nos acostumamos, mas não deveríamos.

Sua irmã continua lutando por vítimas em situações como a de seu irmão e abriu uma associação sem fins lucrativos para divulgar e acompanhar os casos existentes na Itália e no mundo, demonstrando esta ferida aberta que as sociedades carregam com sua voracidade desumanizadora, cada vez mais difícil de ser controlada. Vale a pena assistir e refletir acerca deste caso e de muitos outros que conhecemos no Brasil, considerando que a cada dia, 4 pessoas morrem em prisões brasileiras.



Referência


quarta-feira, 13 de março de 2019

Bartolina Sisa e Tupac Katari

sexta-feira, 8 de março de 2019

No dia 08 de março - mulheres afrolatinas e caribenhas



Muito do que pesquiso tem relação com a América Latina sua condição no mundo enquanto continente colonizado, subdesenvolvido, imersos em crises e disparidades sociais. No dia 08 de Março que é o dia Internacional da Mulher resolvi evidenciar mulheres afrolatinas e caribenhas que seguem lutando e poucas vezes são lembradas quando falamos das referências que pavimentaram e que seguem orientando nossos caminhos. Em cada dia uma homenagem diferente. 


Cuba - Georgina Herrera Poeta e escritora, possuí mais de 16 livros publicados em Havana, nasceu em 1936 no seio de uma família bastante humilde. Começou a publicar aos 16 anos quando mudou para capital na tentativa de melhorar sua situação econômica. Georgina nunca foi uma poeta do regime, esteve sempre a frente das causas defendidas pela Revolução. 



"Eu não escrevo para mim, mas sim para o mundo. Costumava ter medo da atenção, mas agora sinto que é um tesouro, um prêmio, e sinto-me muito satisfeita por poder alcançar as pessoas através da minha poesia"









Elogio grande para mí misma
Yo soy la fugitiva
soy la que abrió las puertas
de la casa-vivienda y “cogió el monte”.
No hay trampas en las que caiga
Tiro piedras, rompo cabezas.
Oigo quejidos y maldiciones.
Río furiosamente
Y en las noches
bebo el agua de los curujeyes,
porque en ellos
puso la luna, para mí sola,
toda la gloria de su luz.



Foto - Google 




Referências 


Bibiana Collado Cabrera.  “Cimarroneándose y en bocabajos” ¿Una poesía afrocubana de la revolución? El caso de Georgina Herrera - Consultado em 07.03.2019

quinta-feira, 7 de março de 2019

Netflix e os Cem anos de Solidão


A plataforma de streaming Netflix tem liderado a produção de séries e filmes, inclusive foi a primeira a concorrer ao Oscar em 2019 com o filme "Roma". Nos últimos dias, a plataforma informou que, mediante autorização da família (por meio da compra dos direitos autorais), produzirá uma série baseada no livro "Cem Anos de Solidão", uma obra clássica de García Márquez. Diante do potencial de popularização da obra, isso parece ser algo bastante positivo. Contudo, cabe lembrar que nada é neutro neste mundo e que algumas das obras aclamadas pela Netflix, como "Vietnã", "Trotsky" etc., relataram uma visão bastante deturpada de todas as minúcias que tais histórias envolveram. Claro que é difícil contemplar tudo e, para aprofundar tais temas, é necessário ler e buscar mais informações... sempre.





O fato de a Netflix praticamente ter o monopólio dessas séries e produções faz com que nos tornemos "reféns" de narrativas enviesadas, considerando que, em geral, poucos problematizam o que veem e muitos talvez passem a conhecer a obra do autor por meio da plataforma. Aguardaremos a série... Neste blog, tentarei expor uma opinião sóbria, corroborando para que mais pessoas conheçam Gael, assim como muitos gênios da nossa América Latina. 


Referência 

http://culto.latercera.com/2019/03/06/cien-anos-de-soledad-serie-netflix/

terça-feira, 5 de março de 2019

O menino que descobriu o vento


"O Menino que Descobriu o Vento" é um filme baseado em uma história real que se passa no Malawi, que significa "sol nascente" e está localizado na África Oriental, fazendo fronteira com a Tanzânia e Moçambique.

O filme está disponível na plataforma Netflix e conta a história de William Kamkwamba, que se tornou famoso ao construir, com materiais rústicos, uma turbina eólica capaz de abastecer sua pequena aldeia, que enfrentava uma crise alimentar devido à seca na região.




Imagem do filme


Há vários pontos que podem ser abordados no filme, para além da incrível história de William. O Malawi foi um país colonizado pelos ingleses, o que resultou em uma "democracia" apenas em 1964. Essa democracia garantia eleições em um único partido vitalício, que permaneceu no poder até a década de 1990.

Em 1993, foram realizadas as primeiras eleições multipartidárias, porém o governo cometeu graves erros econômicos. Parte disso ocorreu devido ao seu caráter colonial, com o país submetido ao modelo de agricultura primária de exportação. Segundo dados da OEC, a maior produção do Malawi tem sido tabaco. Nesta monocultura, sobra pouco para a produção interna e de subsistência, além da venda da própria natureza, como é demonstrado no filme, com a venda de árvores que auxiliam na proteção do meio ambiente e na variação climática caracterizada como desértica. Esses fatores combinados levaram o país a sofrer com a fome e a falta de apoio, por parte de um governo conhecido pela corrupção, que por muito tempo dependeu e ainda depende do apoio internacional, acentuando ainda mais sua dependência.

O filme retrata estereotipos de esperança e, obviamente, em meio a tudo isso, a sobrevivência e o sentido de solidariedade daquela comunidade acabam vencendo algumas das dificuldades. No entanto, penso que ao tratar com naturalidade fatores econômicos que não são naturais, podemos incorrer no erro de romantizar a miséria, quando poderia ser evitada. "O Menino que Descobriu o Vento" possui uma bela fotografia e imagens marcantes de um país rico, porém devastado e marcado pela desigualdade, inclusive no acesso à educação, que é bastante precário e cobrado.

A mensagem que o filme transmite, ao menos para mim, é que muitas vidas poderiam ser melhoradas e salvas se tivéssemos uma sociedade mais justa. Muitos gênios como William Kamkwamba poderiam ser descobertos antes de morrerem de fome ou terem que fugir de suas famílias em busca de uma vida melhor. William foi um vencedor que, com sua genialidade, salvou uma comunidade, mostrando que ideias simples, já utilizadas em muitos países, poderiam salvar muitas vidas em outros lugares.



Imagem do filme





Dados da OEC

https://atlas.media.mit.edu/pt/profile/country/mwi/


Entrevista com William 

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG87250-8489,00.htmL

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Lutas no Equador - Hidrelétrica no Rio Piatua?


#PIATUARESISTE



Nesta quarta feira dia 06 de fevereiro 100 representantes de Santa Clara vão se manifestar 

em nome do Rio PIATUA, um Santuario Natural da província de Pastaza. 

Carlos Peres, Ministro de Energias Renováveis estará presente seus funcionários para discutir a construção de uma central hidrelétrica no rio Piatua que está a cargo da empresa Genefran S.A, a reunião se realizará as 15:00 na Comissão de Fiscalização e Controle Político. 









Rio Piatua





Comunicado oficial 

Quito 100 comuneros y representantes de base del cantón Santa Clara por la defensa del río PIATUA, santuario natural de la provincia de #Pastaza. 

Este día se realizará la comparecencia de Carlos Pérez, Ministro de Energía Renovable,  Marcelo Mata, Ministro de Ambiente y demás funcionarios sobre la construcción de la central hidroeléctrica en el río Piatua a cargo de la empresa Genefran S.A., a efectuarse a las *15:00 en la Comisión de Fiscalización y Control Político, salón José Mejía Lequerica de la Asamblea Nacional*.

Las comunidades y simpatizantes a favor de la protección del Río Piatua se movilizarán en una caravana desde Santa Clara-Puyo-Quito y se concentrarán afuera de la casa legislativa a partir de las 14h00 con pancartas e información de PIATUA LIBRE.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Mensagem de ano novo


Num ato de lucidez um amigo Paulo Alves Lima redigiu uma mensagem de ano novo




Não será demais afirmar estarmos todos de ressaca após a turbulência destes dois últimos anos. Assistimos, mais uma vez, impotentes, o alçar voo dos predadores unidos. Mais uma vez fomos espancados em atos e palavras pelo estado e suas instituições jurídicas, políticas e policiais, assim como por catadupas de abaixo assinados de sindicatos e associações de capitalistas a estampar a indissolúvel unidade dos donos do capital em todas as mídias.
O frágil do equilíbrio político foi destruído por seus próprios e gabaritados predadores em ambos os pilares de sua sustentação. Predação essa que respondia à nova ofensiva revolucionária da contrarrevolução. A frágil teoria das oposições liberais caiu por terra diante da implacável luta de classes. Os revolucionários anti-capital, em sua insignificância fragmentada, assistimos atônitos ao alastrar-se da estupidez violenta e boçal a prometer perseguições, revanche e morte, supostamente enterradas.
Aos desavisados pareceu tais fatos renascerem das sombras, porém o certo é que a contrarrevolução jamais havia sido derrotada e, pior, prosseguia sua marcha através da democracia política por ela desde sempre controlada.
Completar-se-ão, a partir da eleição democrática do candidato da ultradireita, os supremos objetivos da contrarrevolução de 1964. Os neoliberais sociais nada mais ofereceram contra a revolução na contrarrevolução do que acompanhá-la na mesma estrada derrotada, depois de aceitarem o cativeiro de sua figura máxima. Empurraram seu tanto a emancipação social dos trabalhadores e da nação, mas aceitaram a forma legal do golpe e o indiciamento sem provas de seu líder máximo. Não se sublevaram contra o estado de exceção.

Fonte - http://latitudeslatinas.com/assista-a-animacao-sobre-a-revolucao-haitiana/

A revolução na contrarrevolução, ao que tudo indica, não passa de ser um movimento dos temerosos com o fim do capitalismo, temerosos à liberdade. Afinal, o seu campo histórico está em franco retrocesso. OS EUA perdem hegemonia, a Igreja Católica não mais se curva automaticamente à política externa imperialista, o campo mundial das liberdades não para de se expandir, apesar da contrarrevolução mundial e regional ainda ser forte em torno dos apetites das multinacionais. Daí a contrarrevolução mundial, no campo ocidental, haver criado um campo religioso adequado aos seus desígnios reacionários, o neopentecostalismo de resultados, pró-capitalista e neocolonial. Ao que tudo indica, os tempos vindouros serão de reação da ultradireita à catástrofe capitalista. Ao proceder ao desmanche do estado nacional, em aras do alinhamento o maior possível com a potência decadente, a ultradireita cava um futuro de não retorno, prepara a revolução democrática de amanhã.
O retorno da independência ao seu estágio mais neocolonial que jamais, indica que a república forjada pela contrarrevolução de 64 alcançou o seu limite histórico. A luta por uma nova república será a luta por uma nova independência, desta vez a exigir caráter popular e anticapitalista. A revolução bolsonária não passa de ser um uivo irracional desde o coração da impotência subordinada, em trânsito neocolonial expandido, a expressar uma nova e impossível via de salvação do capitalismo da miséria. Seu tom dramático e patético expressa o desespero diante da inviabilidade de uma sociedade fadada a produzir e reproduzir sua miserabilidade, expressa o desejo impotente de espantar os fantasmas que a assediam, por via ideológica irracional. Como um curandeiro a ousar pateticamente substituir a ciência para salvar um paciente incurável.
Mais do que nunca devemos prosseguir nosso caminho de educação dos trabalhadores, de produção teórica corajosa e de forjar a unidade do campo emancipador, com todos os seus matizes. Nossa capacidade de produzir unidade estará à prova, ou seja, nossas habilidades diplomáticas, além das teóricas, serão vitais para nossa existência enquanto organização. Estas serão as nossas tarefas para os tempos vindouros. Espero que as abracemos com presteza, força e coragem.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Não nos chamem de mulatas, mas saibam porquê?


Este pequeno texto explica bastante da complexidade em analisar tudo de forma bipolar, a realidade é bastante complexa e o Pedro Gil (autor do texto) demonstra como em muitos momentos queremos buscar originalidade na nossa colonização, contudo, como dizia Marx a história da humanidade é a história luta de classes, assim, houve sempre dominadores e dominados que precisamos sim, a partir da realidade por nós vivenciada, buscar sentido,  mas sem imitação, sem importação de conceitos, como parece ter ocorrido com o termo "mulata". Nem sempre ele foi (ou é) pejorativo, mas também não deveria ser usado como tal, por fim é o contexto que nos dá a dimensão de ofensa. 

Di Cavalcanti, por exemplo, retratou em sua obra diversas facetas daquilo que pensava ser o povo brasileiro, em uma de suas peças "Duas Mulatas" demonstra a mestiçagem algo que ele mesmo reduziu a uma visão estereotipada. 

A mulata, para mim, é um símbolo do Brasil. Ela não é preta nem branca. Nem rica nem pobre. Gosta de música, gosta do futebol, como nosso povo. (Di Cavalcanti)

Duas Mulatas - 1962


O fato é que ele retratou um Brasil que existia e quando foi que o termo passou a ser entendido como pejorativo? Pedro Gil nos conta....



Existem 3 teorias que as pessoas costumam espalhar por ai sobre a origem da palavra mulato (a):


1 - A palavra mulato tem relação com a palavra “mulo (a)”. O português foi buscar diretamente no latim “mulus”, no século XV, a palavra “mulo”, ou seja, animal híbrido, estéril, produto de acasalamento entre cavalo e jumenta ou égua com jumento. Em qualquer livro didático se acha essa explicação. 


2 - No século seguinte, por influência do espanhol, o termo “mulato” era usado para designar um mulo jovem, e foi certamente por analogia com o caráter mestiço do animal que a palavra passou – a partir de meados do século XVI, segundo o Houaiss – a ser aplicada também, como adjetivo e substantivo, a pessoas descendentes de brancos e negros. 
O tom depreciativo da associação original é indiscutível e facilmente explicável pelo racismo escancarado de uma época escravocrata. O que cabe discutir é se vale a pena condenar o vocábulo por causa disso. 

Então o termo mulato serve para todos? 

NÃO! Nem todos tiveram contato com a colonização espanhola (Nordeste do Brasil por exemplo. Já no sul houve bastante contato). Esse termo pode ter muita força do lado espanhol. Mas do português não é exatamente assim. Outra interpretação para o termo. 

3 - Segundo Lita Chastan “A palavra mulata poderia ter se originado do termo árabe muwallad (= mestiço de árabe com ‘não árabe’). O homem que ‘garimpou’ essa palavra (muwallad), conhecia, presenciara e presenciava essa mestiçagem, tanto assim, que buscou em sua língua uma definição (registrando e batizando-a), não deixando margem a nenhuma dúvida: muwallad = mestiço de árabe com ‘não árabe’. Esse homem a quem se deve esse registro, tudo indica que poderia ser um árabe do norte da África e que referia-se (inicialmente) ao mestiço do árabe com a negra – a não árabe’, diz ela”. E isso faz total sentido, já que portugueses e árabes mantinham comércio muito forte, assim como os árabes mantinham negócios (sim, escravidão, mas diferente do que era feito pelos europeus, haviam particularidades) na África. 

Lita Chastan destaca a presença da cultura árabe na formação da língua portuguesa. “Podemos visualizar o árabe atravessando o Estreito de Gibraltar (711 d.C.). Desde então, no decorrer de oito séculos (711–1492), o vocabulário português viu-se enriquecido com centenas de palavras árabes, dentre as quais, por extensão e analogia, mulata”, afirma, no artigo “MULATA, estudo de um caso mal contado”. E completa: “Muwallad (mualad, mulad) = mestiço do árabe com o ‘não árabe’ / Mulata = mestiça do branco com a negra. Concluímos (ainda na década de 1980), na tão querida e saudosa Unitau – cursando história, frente a frente com a História da Península Ibérica, que a palavra mulata é corruptela do termo árabe muwallad (mualad, mulad, mulata)”.

Algumas vezes os movimentos negros e seus sujeitos são extremamente eurocêntricos ou papagaios dos movimentos negros norte-americanos, esquecendo das DIVERSAS peculiaridades da formação da identidade e particularidades do povo brasileiro.

Texto escrito por Pedro Gil - no Twitter @Pedro_Gils 

domingo, 16 de dezembro de 2018

poesia Latinoamericana - Roque Dalton



O poeta Roque Dalton (Roque Antonio Dalton Garcia) nasceu em 1935 em San Salvador (El Salvador) é conhecido por seus escritos e também pelo seu ativismo político. Sua obra é valiosa em tempos como o nosso foi um homem de  luta em teoria e ação. 



Fonte - http://latitudeslatinas.com/



ATA
(poeta guerrilheiro Roque Dalton, El Salvador, 1935-1975)

Em nome de quem lava roupa alheia
(e expulsa da brancura o sebo alheio)
Em nome de quem cuida de filhos alheios
(e vende sua força de trabalho
em forma de amor maternal e humilhações)
Em nome de quem habita um domicílio alheio
(que já não é ventre amável mas sim uma tumba ou cadeia)
Em nome de quem come pães amanhecidos alheios
(e ainda assim mastiga-os com sentimento de ladrão)
Em nome de quem vive num país alheio
(as casas e as fábricas e os comércios
e as ruas e as cidades e os povos
e os rios e os lagos e os vulcões e os morros
são sempre de outros
e por isso estão aí a polícia e a guarda
protegendo-os de nós)
Em nome de quem o único que tem
é fome exploração doenças
sede de justiça e de água
perseguições condenações
solidão abandono opressão morte
Eu acuso a propriedade privada
de privar-nos de tudo.