No dia 08 de Março relembro a história de uma grande mulher lutadora que inspirou e inspira muitas outras.
Maria José dos Santos Stein, minha tia, carrega
o nome de um hospital em Santo André (SP), conhecida por sua solidariedade
participava ativamente da política por meio da Juventude Operária Católica
juntamente com seu companheiro Elias Stein. Começou a trabalhar aos 14 anos em
uma tecelagem, quando teve contato com as dificuldades das mulheres, logo
ingressou na JOC (Juventude Operária e Católica) onde participava das reuniões
e confraternizações.
Nascida em Garça, chegou à Santo André
ainda menina, carregando consigo uma carga nada leve, a história de uma família
militante, Salvador dos Santos seu pai, que numa época dura, abrigava presos políticos
em sua casa. A vitalidade de Maria José foi levada a cabo nos desafios da luta
pela saúde pública sempre ligada ao movimento operário e de mulheres como liderança
da Fé-minina Movimento de Mulheres de
Santo André e Movimento de Saúde, relatou no livro As Operárias do ABC
Fui descobrindo porque eu era revoltada, o que
realmente a fabrica tinha tirado de mim. Tinha tirado a possibilidade de me
realizar. Mas que não era só. A minha descoberta foi a seguinte: que não era só
de mim que ela tinha tirado, mas que era de todos os meus companheiros e
companheiras (In GARCIA, IVETE, 2007, p.43).
Em conversa com sua filha Laura dos
Santos Stein, rememoramos essa data a partir da experiência de nossa família
que foi para nós uma inspiração. Diz ela que demorou a entender àquela mãe que
nunca estava em casa, mas que quando compreendeu sua ausência passou a ter
certeza que teve muita sorte nesse encontro familiar. Ainda me recordo da Tia Maria
me dando conselhos e mimos, aos domingos, quando íamos à sua casa.
Sua ausência familiar se dava a partir da
doação ao outro e a luta por um mundo melhor, o sonho de um SUS (Sistema único
de Saúde) humanizado para que as mulheres tivessem mais direitos, conversava
com as coletoras de papelão para que montassem uma cooperativa...tantas coisas,
tantas lutas. Relembramos...
Mesmo aos 60 anos e cansada, Maria José
saía cedo para pegar o ónibus para o trabalho e voltava tarde da noite, dizendo
“hoje teve reunião do fé-minina, hoje
teve orçamento participativo, hoje tem reunião da comissão da saúde” Ela subia
o morro, em todos os sentidos e nos carregou juntas. Nos 80 e 90 sua luta em
conjunto com outras mulheres por um sistema de saúde humanizado lhe concedeu a
homenagem de levar o nome do hospital, que, fundado em
agosto de 2008, Maria José não teve tempo para ver tamanha homenagem.
No seu velório, em 2005, apareceram todos
estes sentimentos plantados em cada uma das pessoas que teve contato com ela,
chegavam muitas coroas e a Prefeitura de Santo André disponibilizou uma
carrinha para levar tantas flores e homenagens recebidas. Apesar da vida, na
sua dialética que nos aproxima e nos distancia, o que sentimos hoje é a gratidão
por ter nascido em uma família que nos deu valores humanos tão raros e que também suscita nossa atuação nesse mundo carente de lutas e de lucidez.


