O filme é uma bandeira social
O filme italiano Na própria Pele que se encontra disponível na plataforma Netflix, relata de forma bastante dramática a história de Stefano Cucchi preso em 2009 por porte ilegal de drogas, preso por um crime aparente comum uma vez que ele se declara usuário e em tratamento Stefano morre devido aos maus tratos causados pela violência policial.
Sua família, que não conseguiu vê-lo na prisão, toma a frente da batalha judicial em busca da verdade sobre o que teria acontecido com o filho e irmão durante os dias na prisão. É possível perceber a diferença entre o tratamento policial na Itália e no Brasil, no documentário se nota que há alguns policiais preocupados com o estado do jovem de 31 anos, que vai se agravando dia após dia, outros não se importam, bem como os médicos e o próprio advogado do Estado que, a princípio, parece não se atentar na forma como Stefano aparece ao primeiro julgamento, repleto de nódoas e com duas costelas quebradas.
O filme é muito bem feito e carrega nossas emoções junto com o drama de Stefano que quer ter um vida comum familiar e se depara com as injustiças perante um sistema todo moldado para que ele não consiga, por outro lado, sua família sofre com ele e tenta colocá-lo, por meio do afeto, em uma condição melhor, mas ao acreditar na justiça percebem tardiamente que entregaram o filho a morte mesmo que só tenha passado uma semana.
![]() |
| Imagem do documentário |
A falta de confiança em todos torna Stefano alguém que aguarda que lhe apresentem um desfecho para própria vida, já que ele não revela aos médicos e advogados quem o espancou. Segundo o documentário a morte de Stefano foi causado por espancamento policial da "Arma dos Carabineiros" (ala da polícia italiana) em outubro de 2018 o caso teve uma reviravolta já que alguns carabineiros assumiram a violência em uma espécie de ação combinada deixando Stefano deformado - segundo o jornal El Pais
Stefano foi encontrado com magro indicando desnutrição, com duas costelas quebradas, com o rosto todo deformado e após ter passado uma semana na prisão suplicando para que lhe dessem suas pastilhas para epilepsia. Sua irmã foi quem colocou o debate no topo das discussões mais controversas na Itália, quando assumiu a dependência química do irmão como uma questão de saúde pública, a brutalidade policial como algo a ser combatido e denunciado, tornou o caso um exemplo para que não acontecesse mais
Trata-se de um filme que é também uma bandeira social, mesmo que passando-se na Itália não nos faltam casos em todas as sociedade de mortes e abusos em prisões. Vale ressaltar que o filme nos mostra a complexidade humano onde nem tudo é bom ou ruim, existiram pessoas preocupadas com Stefano e mesmo após sua mortes alguns policiais denunciaram seus colegas por sentirem vergonha da que haviam feito. Como brasileira é triste ver o filme de forma naturalizada, já que segundo os dados divulgados entre 2014 e 2017 pelo menos 6.368 homens e mulheres morreram sob a custódia do Estado, seja por doenças que infestam as penitenciárias, homicídios ou suicídios é a velha máxima que nos acostumamos, mas não deveríamos.
Sua irmã continua lutando por vítimas em situação como a de seu irmão e abriu uma associação sem fins lucrativos, para divulgar e acompanhar os casos existentes na Itália e no mundo, demonstrando esta ferida aberta que as sociedades carregam com sua voracidade desumanizadora cada vez mais difícil de ser controlada, vale a pena assistir e refletir acerca deste caso e de muitos outros que conhecemos no Brasil, considerando que a cada dia 4 pessoas morrem em prisões brasileiras.
Referência
